As utopias de Marilena Chauí

2 06 2013

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Em 2006, tive o raro privilégio de entrevistar com exclusividade a filósofa Marilena Chauí, que acabara de proferir conferência na 58ª Reunião Anual da SBPC, em Florianópolis, sobre “Utopias”. Para uma imensa e atenta platéia ela esclareceu preliminarmente que “u-topia” deve ser traduzido por “não-lugar”, ou seja, um lugar que se contrapõe ponto a ponto ao que existe. Em seguida, traçou um caminho que começa na República de Platão, e termina no filme Matrix, de Andy e Lana Wachowski, de 1999. Entre um e outro passa por Thomas More, pela “Nova Atlântida” de Francis Bacon, por “1984” de George Orwell, por “Farenheit 451”, de Ray Bradbury e pelo “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley. Ao final desta incrível viagem, afirma que Utopia não deve ser entendida como o planejamento de uma sociedade perfeita mas como um projeto de vida. Ao sair do salão da conferência uma legião de repórteres a cercou. Faltava pouco mais de dois meses para a eleição presidencial e Lula buscava a reeleição em meio a ondas de denuncismo fabricado pela oligarquia midiática que apostava todas suas fichas na eleição do tucano Geraldo Alckmin. Os repórteres queriam alguma declaração bombástica da filósofa petista que pudesse ser transformada em arma contra Lula. Mas ela estava preocupadíssima com o avião que precisava pegar, estava atrasada, correu para o carro que a levaria e não atendeu ninguém. Enquanto todos lamentavam a perda da pauta e tentavam encontrar outra vítima, corri para o aeroporto onde a encontrei mais calma com cartão de embarque na mão e fui o único a conseguir uma entrevista, enquanto tomamos café tranquilamente, por mais de uma hora, pois o vôo atrasou. Eu não estava preocupado com declarações  bombásticas. Queria falar sobre mídia, poder e justiça com uma das mentes mais lúcidas do nosso país. A entrevista foi publicada originalmente no portal do TRT-SC. Reencontrei-me com o arquivo por acaso e divido agora com vocês, pois passados seis anos, permanece de uma atualidade assustadora.

CAIO- Em sua conferência “Utopias”, a senhora citou quatro obras contemporâneas de ficção científica: 1984, de George Orwell, Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, Fahrenheit 451 de Ray Bradbury e o filme Matrix, como inspiradas nas formas clássicas de utopias. Em todas essas obras o controle do poder político se dá através de poderosos meios de comunicação de massa parecidos com os que temos hoje. Na sua opinião, com qual dos cenários descritos nessas obras se parece mais o atual momento histórico por que passa a humanidade?

MARILENA CHAUÍ1984. É o mais atual. Porque 1984 é uma sociedade do trabalho, diferentemente das outras que são sociedades do lazer ou do conhecimento, se você quiser. É uma sociedade do trabalho e é uma sociedade que não tem hierarquia, enquanto as outras tentam uma forma qualquer de igualação que você não tem em 1984. Depois, você tem, em 1984, instituições que produzem os efeitos que são narrados enquanto que nas outras obras se tem uma referência vaga à Ciência, ao conselho político…vamos dizer, o poder é uma coisa distante, feroz e remanescente. Em 1984 não. Ele está presente diretamente, produzindo o poder. Tem o Ministério da Verdade que produz mentira, a novilíngua modificando o significado da linguagem, as formas de manter o controle e que são não apenas o Big Brother na teletela, repetindo indefinidamente os mesmos condicionamentos, mas o uso do medo como a grande forma de obter a obediência e a submissão – a interação é subproduto. Tanto o medo individual, no caso o medo dos ratos, como no nível coletivo. Então, esses são traços muito mais próximos da nossa sociedade. A presença do medo, a presença do trabalho insano, sem sentido, sem recompensa, a clareza da presença dos poderes que realizam os seus efeitos sobre a sociedade e o controle através da comunicação. Então eu acho que 1984 é o mais próximo de nós.

NOTA:  A expressão “Big Brother” que dá nome ao programa de televisão atual, tem sua origem na obra “1984”, escrita por George Orwell em 1942. Nela o autor descreve uma sociedade do futuro, onde as pessoas são totalmente controladas pelo Estado que se faz onipresente através das “teletelas”, grandes televisores com câmeras, instaladas nas paredes das residências ou locais públicos, através dos quais os indivíduos são espionados permanentemente e pelos quais recebem ordens intermitentes de como se comportar em relação ao Estado. O personagem central é um jornalista, funcionário do “Ministério da Verdade”, cujo trabalho é apagar dos registros os fatos contrários ao sistema e inventar registros favoráveis ou neutros, publicando-os como notícias.   

A senhora afirmou em palestra recente que o jornalismo de hoje produz verdades ou seja, produz o real, e assim fazendo se apresenta como um deus. Só é real o que aparece na televisão. Se não aparecer na televisão pode ter acontecido na minha frente mas não é real. A minha pergunta é: qual a saída para isto? Qual o antídoto?

Eu creio que a imunização pode ocorrer em duas situações. Uma é aquela na qual o grau da enganação por parte dos meios de comunicação ultrapassa o limite da contradição. Então entre o que eles inventam e a realidade cotidiana há uma contradição tão profunda que você passa a não acreditar na comunicação. Essa é uma possibilidade e a gente já viu coisas acontecerem nesta linha. Na segunda guerra do Golfo, isto ficou evidente. É o ponto em que a mídia ultrapassa o limite no qual ela poderia conter a contradição entre ela e a realidade. Quando ela ultrapassa esse limite, ela é vencida.

A senhora diria que o Brasil está chegando esse ponto? Já ultrapassou ou ainda não?

Não. Ainda não ultrapassou, mas está chegando lá. A outra coisa é a eficácia social e política da contra-informação. Esta é a única arma de que nós dispomos.

A realidade contra a realidade virtual?

Exatamente. Então aí é uma decisão política importante. Tentar infrutiferamente controlar uma mídia que não está sob seu controle ou optar por um caminho alternativo que neutraliza o seu poder. Outra coisa importante, é pensar como o poder da mídia – e aí é da mídia mundial – é inseparável da formação de uma espécie de senso comum ou consenso médio sobre a realidade. É o estabelecimento de parâmetros muito simples, muito simplificados sobre o certo e o errado, o verdadeiro e o falso, o bom e o mau e a modelagem das notícias e dos acontecimentos por esse padrão médio e de senso comum, porque isso alcança as pessoas como reiteração do que elas pensam. Em vez da informação produzir pensamento, ela impede o exercício do pensamento. Porque ela é só confirmação do que você acha que você já sabe. Isso é uma arma poderosíssima. Eu quero ouvir o noticiário porque ele me confirma. Mexer com isso é muito mais complicado.

O antídoto seria então uma atitude política do cidadão? Seria a única forma dele combater aquela realidade virtual? No momento em que ele se torna um ente político nessa sociedade ele se transformaria num ator dentro da realidade e não um espectador diante da televisão?

Exatamente. Muda o lugar dele. Então ele não é um contemplador passivo mas ele é um produtor da ação. Isto significa que ele sabe, por que ele realiza a ação, ele faz …

E aí consegue fazer a crítica do que ele assiste na televisão…

Exatamente. Aí ele pode dizer eu estava lá, eu fiz isso, como é que eles estão dizendo outra coisa. A politização é decisiva.

1984 - o jornalista

O jornalista de 1984 e sua máquina de manipular informação (cena do filme de Michael Radford)

Na Utopia de More, ele coloca o trabalho como uma força dignificante do homem. Hoje em dia o trabalho é uma atividade escravizante…

Você tem que levar em conta que o More tem diante dele uma sociedade escravista. É o início do capitalismo, uma sociedade escravista que desvaloriza o trabalho e que se baseia na posse aristocrática da terra. Então quando ele imagina a ausência da propriedade privada e a dignidade do trabalho, o que ele pensa é o desmoronamento da forma social da nobreza. É o fim da aristocracia o que ele pensa. Ele não tem condição de avaliar o que vai acontecer com o trabalho no capitalismo. Quando ele escreve, o que está na cabeça dele é como é que eu desmonto, como é que eu destruo a forma da desigualdade? E, na cabeça dele, a forma da desigualdade é a forma aristocrática. Então o que ele fez? Ele acabou com a propriedade privada da terra e acabou com o trabalho escravo.

Hoje nós temos uma massa de trabalhadores submetida a trabalho escravizante e outra massa de não trabalhadores, de desempregados, que almeja até mesmo este trabalho escravizante, na expectativa de alguma dignidade.

Eu inclusive escrevi um ensaio sobre isso. É o penúltimo ensaio desta nova edição do “Cultura e Democracia”, em que eu faço uma análise do neoliberalismo. O que significa manter a ideologia da dignidade do trabalho numa sociedade com o desemprego que se tem? Esta é uma das coisas mais perversas que o capitalismo conseguiu inventar, porque ele inculcou nos trabalhadores a idéia de que o trabalho é uma virtude, que o trabalho dignifica, que só quem trabalha é verdadeiramente humano, e depois ele tira o trabalho. Portanto ele desumaniza, ele humilha e destrói os trabalhadores. Põe perversidade aí. Eu fiz uma análise disso lá no Cultura e Democracia, que não vou repetir agora. Mas a idéia básica é essa.

Eu sou jornalista de um órgão do Judiciário e gostaria de saber sua opinião sobre a chamada Justiça comum, a justiça estadual, que é muito lenta e de difícil acesso à maior parte da sociedade o que traz sérios problemas principalmente na área penal.

Sim. Você não está vendo o que estão acontecendo em São Paulo? Se misturam a ineficiência do Judiciário, o absurdo do amontoado de leis, os erros da estrutura penal e penitenciária, o uso sistemático da repressão, que foi usada na Febem, foi usada com as crianças por oito anos; foi usada contra os encarcerados durante oito anos também; foi incapaz de resolver o problema de uma polícia que tem duplo comando, a questão salarial, a questão instrumental, o modo como tratou as quadrilhas fazendo com que os indivíduos fossem espalhados nas diferentes prisões do estado e que operassem, portanto, como pedagogos em regiões onde eles não tinham influência, e a idéia de que o bandido mata e a polícia também. Portanto a idéia de que a polícia opera no campo da lei e da Justiça e que ela não pode operar exatamente como o bandido opera, dançou. Depois você tem a legitimação da execução primária dos dois lados. O abandono total da noção de Estado de Direito e de Direitos Humanos dos dois lados.

No início da sua intervenção no Congresso Nacional dos Jornalistas, há cerca de um mês, a senhora afirmou que “nos países desenvolvidos o Executivo, o Legislativo e o Judiciário são eleitos pelo povo”. A senhora acredita que isto pode ser uma saída para o Judiciário brasileiro?

Sem dúvida nenhuma. Por um lado a diminuição e a simplificação do número das leis e do vocabulário das leis. As leis existem para não serem entendidas e não sendo entendidas não são respeitadas nem praticadas. Então precisamos de uma mudança no sistema legal, como tal. E depois eleições. O Poder Judiciário tem que ser eleito. Não pode ser um poder vitalício ou por escolha dos seus pares.

Mas no Brasil temos concurso público para a magistratura. É o único país da América latina que faz concurso público para a magistratura na primeira instância…

Mas tem que ter eleição. Tem que repensar. Tem que ver como implementar efetivamente os tribunais de pequenas causas, simplificar os procedimentos. Meu Deus…

A senhora não acha que se tivéssemos eleições poderíamos cair num sistema com grande influência do poder econômico como se vê no Legislativo, com ocorrência de campanhas milionárias?

Olha, é um risco, mas se você pensar num modo de eleição do Judiciário à maneira, por exemplo da Suécia ou da Inglaterra, veremos que funciona sem a idéia de campanhas eleitorais. O cara está enraizado na comunidade e é pela ação que ele realiza na comunidade que ele recebe a escolha para o cargo ou não. Então, funciona quase por democracia direta, através de uma relação direta com os indivíduos. Particularmente na Suécia e na Inglaterra, você não tem um sistema eleitoral como no caso dos deputados. É uma outra forma de eleger, muito participativa. Quase uma democracia direta mesmo.

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