Em quem voto e em quem não voto nem amarrado

29 09 2014

100 mil

Eu e Angela Albino trabalhamos juntos no TRT, militamos juntos no sindicato, fizemos muitas greves e ela acabou se filiando no mesmo partido em que eu já militava há muitos anos. Pedi muito voto para ela como vereadora e deputada. mas desta vez não vou fazer isso. A posição que vou expor, não tem absolutamente nada de pessoal. É essencialmente política.

O PCdoB, meu partido, em SC, tomou uma decisão equivocada e impossível de ser seguida por um comunista como eu. Nestas eleições aliou-se a partidos da direita encabeçados pelo PSD do governador Colombo, ex-PFL que tem até o DEM na chapa. Já me manifestei sobre isso ( https://criticadaespecie.com/2014/07/01/direcao-faz-do-pcdob-catarinense-uma-sucata-ideologica ). Assim fazendo, optou por desprezar votos ideológicos da esquerda, aqueles que, anônimos, sempre votam nos candidatos comunistas por convicção ideológica e confiança na sigla, ou seja, os votos conscientes. Os defensores da aliança, que considero absurda, dizem que o importante é eleger a qualquer preço. Me incluo entre os comunistas que não ultrapassam certos limites éticos e classistas. Por toda minha vida de militância nas lutas da classe trabalhadora, me sinto ofendido ao ver candidatos do PCdoB na televisão, e a foto do Colombo ao fundo, com aquela cara de Papai Noel de shopping que coloca a criança no colo, pede um beijo (voto) e promete presentes que nunca vai dar. Colocam Colombo ao fundo e se apresentam como “um novo jeito de fazer política” (!?) Cada um é livre para adotar os conceitos que quiser. Chamam isso de “pragmatismo”, eu chamo de outra coisa.

Além da questão ético-política, há outra de ordem prática que me impede de votar na candidata do PCdoB a deputada federal, Angela Albino. Este ponto foi muito bem explicado pela camarada Elenira Vilela, de quem pego emprestadas as reflexões pois são, letra por letra, exata e redundantemente, o que penso do assunto. Diz Elenira:

“Nessa postura há um detalhe muito importante que torna a decisão ainda mais absurda do ponto de vista político: o PCdoB compõe com candidata única a coligação proporcional que oferece candidatos a Câmara Federal com 12 partidos: PSD / PRB / PMDB / PR / PTB / PSC / PSDC / PROS / PV / PC do B / PDT / DEM. Lembre-se que a eleição pra proporcional é por partidos ou coligações primeiro e somente depois nominal. Como está explicado nesta reportagem da Carta Capital: http://www.cartacapital.com.br/politica/como-e-eleito-um-deputado-7022.html. A coligação da qual o PCdoB participa para estadual é bastante mais restrita e não conta com o DEM, o PMDB e o PSD, partidos de oposição de direita ao projeto nacional (lembrando que o PMDB de SC é oposição, apesar de nacionalmente o partido compor o governo) e tem se mostrado eixo central na tentativa de evitar o avanço de políticas sociais e todas as iniciativas do governo no sentido da distribuição de renda e melhora da vida do povo. Além de combater a construção da soberania brasileira em relação ao imperialismo e na autodeterminação de povos como os BRICS, a ALBA, o Mercosul e o G20 de países em desenvolvimento. Portanto, eleger deputados dessas coligações significa fortalecer o pior inimigo que temos, os mais reacionários e mais vorazes.”
(…)

Não é nada pessoal, repito, mas votar em Angela Albino nessas eleições, continua Elenira com minha integral concordância, significa: “dar votos a um projeto diametralmente oposto, é votar em uma coligação e aumentar a chance de eleger figuras conhecidas da pior política catarinense como César Souza (nesse caso o pai), João Rodrigues (típico coronel da região oeste, que nossos companheiros enfrentam cotidianamente), João Paulo Kleinubing (herdeiro de mais uma das oligarquias catarinenses e ex-prefeito de Blumenau que representou enormes retrocessos na vida da população daquela cidade), Celso Maldaner (também de velha oligarquia local, está junto com Beto Albuquerque querendo derrubar a regulamentação da profissão de motorista, recentemente conquistada), Jair Miotto (ex-vereador de Florianópolis, pastor de uma igreja evangélica e que trabalha contra avanços nos direitos humanos), entre outros…”

Registre-se que a esquizofrênica lei eleitoral permite coligações diferentes para cada cargo e neste particular, reforço que a coligação do PCdoB para Deputado Estadual é diferente, com PDT, PV, PROS, PSDC e PTB, partidos cujos candidatos não possuem fichas ideologicamente incompatíveis com as lutas que luto, ao contrário dos aliados da chapa para federal.

Com isso, abro meu voto pensado e fundamentado nestas eleições.

ESTADUAL – Para Estadual, votarei em VALDUGA 65123, candidato do PCdoB de Chapecó, o camarada, que foi veementemente contra as coligações com a direita na decisão interna do partido, sendo um dos votos contrários, no que honrou e representou dignamente a militância partidária do oeste. Jamais votaria em um candidato que aprovasse aliança com Colombo como fizeram todos os demais.

FEDERAL – Será um candidato de partido de esquerda que não esteja coligado com a direita. Não voto na candidata única do PCdoB pelas razões expostas.  Provavelmente votarei em alguém do PT, do oeste, acompanhando muitos camaradas comunistas da região, com todo o respeito às demais candidaturas de esquerda do PSOL, PSTU e PCB.

SENADOR– Miltom Mendes (PT) – É um advogado trabalhista sério, comprometido com as lutas dos trabalhadores. É honesto e é companheiro de lutas. Não é possível que alguém vote em Paulo Bornhausen ou Dário Berger, gatos do mesmo saco que só servirão para manter a velha política e ache que está votando em mudança!

GOVERNADOR– Sem qualquer sombra de dúvida, VIGNATTI (PT) pois é a possibilidade material de mudar alguma coisa na velha política oligarquica catarinense. Também não sou idiota para cair na campanha anti-petista da mídia elitista desesperada pela perda de espaço da direita a qual pertencem os donos das TV’s, revistas e jornais. Está mais do que na hora de Santa Catarina experimentar um governo diferente dos de sempre. Não voto na direita nem amarrado, mas respeito o voto nos partidos de esquerda como PSOL, PSTU ou PCB.

PRESIDENTE– Outro dia um conhecido escreveu que vota na Dilma pois: “Aécio eu sei quem é e Marina, nem a própria sabe”. Acho que é simples assim. O velho Brizola disse uma vez que quando estava em dúvida sobre alguma coisa verificava qual a posição da Globo e ia para o lado oposto. Pode-se dizer o mesmo da grande mídia (Globo, Veja, Band, SBT, Estadão, Folha, RBS, etc). Portanto, se a mídia quer Aécio ou Marina, e age desesperadamente para eleger qualquer dos dois, eu vou de Dilma. Mas não é só por isso. Tenho muitas críticas aos governos do PT. Acho que poderiam ter feito mais no campo político, como regular o capítulo dos Meios de Comunicação da Constituição Federal, recuperar o monopólio da Petrobrás sobre o petróleo, ter suspendido o leilão de libra, ter revertido algumas privatizações comprovadamente lesivas ao patrimônio público como Vale, teles, geradoras de energia e portos. Não o fez, por medo de chamar o povo para enfrentar os poderosos que financiam o Congresso (e graças a Gilmar Mendes continuarão financiando nesta eleição). Mas Aécio e Marina representam a manutenção programática e intencional de tudo isso que eu quero acabar! Mesmo com todas as críticas que eu tenha, pelo que deixou de fazer, não há como fechar os olhos – o que faz a mídia – para as mudanças reais implementadas no Brasil nesses 12 anos Lula-Dilma. Tiraramos o Brasil do mapa da fome, enfrentamos a maior crise do capitalismo mundial preservando e criando empregos e melhorando salários enquanto trabalhadores dos países ricos pagam a conta dos desmandos de seus governos com desempregos de até 30% e enormes perdas de direitos e salários. Fui e sou contra o leilão do pré-sal, mas ele foi muito menos prejudicial para o país do que o modelo de concessões criado pelo PSDB que Aécio e Marina já se manifestarm favoráveis. A política externa brasileira pós-Lula, que sepultou a ALCA, nos aproximou da nova América do Sul soberana e criou os BRICS afastando o Brasil da submissão vexatória aos EUA em que nos havia colocado FHC foi o ponto alto desse período e precisa continuar. É a afirmação da nossa soberania. A mídia, a direita e os candidatos em que apostam não gostam. São alinhados vergonhosamente com o imperialismo estadunidense. Então, em respeito às críticas que faço ao governo do PT pelo que não fez, tenho que votar na Dilma pois as outras opções são o total retrocesso. Aécio é o PSDB que todos conhecem de FHC. Privatizações fraudulentas, terceirizações, ataque a direitos dos trabalhadores, “medidas amargas” (para o povo) já prometidas pelo Aécio, desemprego, arrocho salarial Quem é trabalhador e viveu o governo FHC, não digita 45 nem no micro-ondas (piadinha do face). Quem ouve Marina e observa suas alianças e mentores econômicos (todos tucanos), percebe: 1- Ela, pessoalmente é  desequilibrada e não tem noção do que está falando; 2- Quem vai dar a linha são os economistas tucanos, banqueiros do Itaú, oligarquias medievais do DEM, etc. E agora, a uma semana da eleição, foi às pressas a Washington quase escondida, sem agenda definida, para fazer o que? Segredo total! Ninguém fala. Vou confiar na inteligência dos leitores para imaginar.

Então, amigos, é Dilma sem maiores divagações, para evitar retrocessos dramáticos. E depois, é povo na rua pra mudar, pois sem trabalhadores organizados e mobilizados, isso tudo que queremos mudar não mudará.





Não há guerra na Palestina

26 07 2014

Tanque

Não há guerra na Palestina, há extermínio de pessoas como quem passa o trator sobre um formigueiro. Para que haja uma guerra, pressupõe-se que exista um mínimo equilíbrio de forças, então vejamos. O comandante da Força Aérea Israelense, Anair Eshel, afirmou em maio passado sobre o poderio bélico de Israel que “as nossas capacidades ficam em segundo lugar, perdendo apenas para os EUA, a partir de um ponto de vista ofensivo como defensivo” (1). Os palestinos não tem nem um ultra-leve. O exército de Israel possui os mais modernos armamentos como drones aéreos e terrestres, centenas de tanques com armas de última geração, navios de guerra e submarinos. Seu exército regular é formado por 176.500 militares na ativa e mais 445.000 na reserva. As informações são do site oficial das Forças de Defesa de Israel (2).

Estima-se que vivam em Gaza, um pedaço de terra do tamanho da Ilha de Santa Catarina onde fica Florianópolis, aproximadamente 1,5 milhão de pessoas. Contando apenas os militares da ativa, são mais ou menos um soldado para cada 9 palestinos, incluindo todas as mulheres crianças e idosos, que vivem numa prisão a céu aberto como um campo de concentração. Ninguém sai nem entra sem autorização dos guardas de fronteira que submetem os palestinos às maiores humilhações. A Faixa fica na beira do mar vigiado pela marinha israelense. Ninguém passa nem de dentro pra fora nem de fora pra dentro. Do outro lado tem um muro como o de uma penitenciária de segurança máxima. Este povo prisioneiro não tem tanques nem exército. São prisioneiros em sua própria terra que era muito maior e foi invadida pelos soldados israelenses em sucessivas ações militares desde a malfadada fundação do Estado de Israel, quando os judeus ficaram com 56% da Palestina e os palestinos com apenas 44%. Em 1967, o exército israelense invadiu mais ainda, ficando com 78% do território contra 22% dos palestinos. Em 2006, mais invasões militares e os palestinos ficaram reduzidos a 13% do seu território. A reivindicação deles é pelo menos a volta das fronteiras anteriores a 1967. Alguém acha isto absurdo?

Chamar os bombardeios de Israel de guerra é cumplicidade com o genocídio e com o roubo do território palestino através de invasões militares condenadas até mesmo pela ONU. Os governos do mundo assistem inertes, limitando-se a inócuas declarações diplomáticas. Ninguém propõe um bloqueio a Israel como fazem com a Síria, ninguém propõe uma zona de exclusão aérea como fizeram na Líbia, para impedir os ataques aéreos de Israel. Ninguém propõe intervenção internacional para “proteger os civis”, como fizeram no Afeganistão e no Iraque. Ninguém acusa os governantes de Israel de ditadores sanguinários nem pedem suas cabeças numa bandeja como fizeram com Saddam, Kadafi, Bin Laden ou Bashar al-Assad.

Nada disso acontece porque Israel não é um pais isolado, cujos governantes gostam de cometer atrocidades. É o país no mundo que mais recebe dinheiro dos EUA. Não recebe empréstimo, recebe doações milionárias, chamadas de ajuda, para sustentar a matança. Todos os aviões, a maioria dos tanques e demais armamentos de Israel são fabricados nos e fornecidos pelos EUA. Os restantes são fabricados em Israel em sistema de cooperação tecnológica com empresas estadunidenses e benção dos governos, sejam democratas ou republicanos. Israel é um pedaço dos EUA plantado no meio do Oriente Médio para defender seus interesses estratégicos de controle do petróleo com a grande vantagem de não precisar se submeter às leis, ao Congresso nem à opinião pública do seu país. Mas não há petróleo na Palestina! Não, não há, mas há a localização estratégica para atacar qualquer pais que sonhe em atrapalhar os planos dos EUA de controle da área. Sites militaristas israelenses falam abertamente de planos táticos para atacar Irã, por exemplo.

O jornalista e economista estadunidense Paul Craig Roberts, que entre outras atividades foi editor do Wall Street Journal, e economista do governo Reagan, escreveu esta semana que “como recompensa pela política de genocídio, o governo Obama já está repassando, imediatamente, $429 milhões do dinheiro dos contribuintes norte-americanos, para Israel: é o pagamento pelo mais recente massacre”. Antes que alguém pense que a denúncia é uma tentativa de republicanos atacarem democratas, convém ler outro trecho do artigo: “a Câmara e o Senado já aprovaram resoluções de apoio ao morticínio de palestinos por Israel. Dois Republicanos – o desprezível Lindsey Graham e o frustrante Rand Paul – e dois Democratas – Bob Menendez e Ben Cardin – apresentaram projeto de Resolução ao Senado de apoio ao assassinato premeditado de mulheres e crianças palestinas, por Israel.

A maioria dos políticos e os governos estadunidenses tem banqueiros, mega-investidores e grandes empresários judeus como principais financiadores de suas campanhas.

NÃO EXISTEM MOTIVOS RELIGIOSOS PARA GUERRA

As razões das desavenças entre judeus e palestinos não tem nada a ver com religião como repetem insistentemente os meios de comunicação empresariais, chamados apropriadamente por Paul Craig de “press-titutas”.

As causas dos ataques de Israel e da resistência palestina não estão perdidas em páginas empoeiradas do velho testamento. Judeus e muçulmanos são árabes, filhos de uma mesma terra e com uma cultura comum, com exceção da religião. Na maioria dos países do mundo de hoje católicos, protestantes, budistas ou muçulmanos convivem em harmonia. O Brasil é exemplo disso. Circula na internet um vídeo de uma manifestação há poucos dias em Nova Iorque em defesa da paz na Palestina e pelo fim do Estado de Israel (3). A manifestação foi promovida por judeus ortodoxos! O religioso judeu que aparece conduzindo o protesto, afirma em defesa de tais bandeiras que judeus e muçulmanos conviviam em paz na Palestina até 1948, quando foi criado o Estado de Israel. Ele conta que as mães muçulmanas cuidavam das crianças judias quando seus pais se ausentavam para participar das cerimônias religiosas judaicas, e as mães judias cuidavam das crianças muçulmanas quando seus pais saiam para as suas cerimônias. Que exemplo mais eloquente de convivência respeitosa entre praticantes de religiões diferentes! Muçulmanos não combatem os EUA e Israel porque querem impor o Islã ao mundo. Ao contrário, eles foram vítimas dessa prática de impor religiões a força por parte de países católicos ocidentais durante as cruzadas. Os muçulmanos e árabes combatem os EUA para defender suas terras, seus países e sua cultura, violentamente atacadas, saqueadas e dominadas pelo Império pós-moderno. Os EUA mantém Israel armado até os dentes para garantir petróleo barato em fluxo permanente do Oriente Médio. E o fazem a qualquer custo, incluindo o extermínio, se necessário de povos inteiros quando estes insistem em resistir. Não há nada de religioso nisso.

Imaginem se os EUA, a partir de suas dezenas de bases militares na Colômbia resolvesse invadir a Amazônia brasileira para controlar a água, abundante em nosso país e que cada vez se torna mais valiosa no mundo diante da degradação do meio ambiente. Eles entram no nosso país, cercam a Amazônia com soldados e bases militares, e iniciam um processo de colonização com cidadãos estadunidenses. O que deveríamos fazer? Temos o direito de resistir e tentar expulsar os invasores? Ou não temos este direito? Se começarmos a atacá-los com as poucas armas que temos, em forma de guerrilha, pois é impossível bater de frente sem sermos esmagados, isto dará direito legítimo a eles de revidarem com toda a sua força? Colocarmos como meta prioritária expulsar os invasores seria um ato hostil, desumano ou reprovável? É exatamente isto o que acontece na Palestina. Israel invadiu, cercou, ocupou e instalou colonos judeus nas terras roubadas dos palestinos. Não estamos falando do território do Estado de Israel criado em 1948. Estamos falando dos territórios palestinos invadidos e ocupados a força depois de 1967, sem aval da ONU e com sua condenação. Nada disso se fala na imprensa-empresa a serviço do Império. Eu poderia ter escrito o que transcrevo a seguir, mas talvez fosse “acusado” de “esquerdista”, “comprometido”, “comunista” ou quem sabe deanão diplomático”, então uso as palavras do próprio insuspeito estadunidense Paul Craig Roberts, que esclarece: “todas as press-titutas/press-titutos continuam a dizer sempre a mesma coisa. O mais provável é que essa opinião única e uniforme apenas reflita o treinamento pavloviano da imprensa-empresa ocidental, que sempre, automaticamente, se alinha com Washington. Nenhuma ‘fonte’ quer ser criticada por ‘antiamericanismo’ ou quer ver-se isolada da opinião geral, a única que se ouve, a única que se admite, a única que não pode ser contestada, sob pena de o ‘especialista’ receber ‘nota vermelha’ no boletim.

Então, quando os meios de comunicação falam em guerra, atribuindo culpa recíproca aos dois lados, invasor e invadido, para justificar a matança promovida por Israel como “defesa” dos foguetes do Hammas, estão omitindo os fatos, estão omitindo a verdade, estão negando a legitimidade dos palestinos defenderem seu território. Estão ajudando a convencer leitores e expectadores que os territórios ocupados a força por Israel não devem ser contestados nem devolvidos, que os palestinos não tem direito de defenderem a terra que lhes foi tomada e lutar pela sua devolução. Estão tentando convencê-lo que a culpa pela matança é do povo que está sendo assassinado. Estão escondendo que o objetivo de Israel é expulsar todos os palestinos da faixa de Gaza e se apropriarem também de mais esse território ainda que tenham que matar todos. E depois de Gaza avançarão para os outros guetos em que foi transformada a Palestina, já cercados e isolados, prontos para serem covardemente invadidos.
Protejam-se, portanto, do falso jornalismo e ajudemos todos a defender a causa palestina, antes que precisemos defender o nosso território.

(1) http://israel-livre.blogspot.com.br/

(2) http://ihttp://www.idfblog.com/

(3) https://www.facebook.com/photo.php?v=10204590282743564&set=vb.1429149223&type=2&theater





Direção faz do PCdoB catarinense uma sucata ideológica

1 07 2014

Sucata ideologica

Nada sobrou de comunista no partido comunista depois da minúscuila convenção de cartas marcadas homologar aliança com a direita que comanda Santa Catarina desde que o estado existe. Não são comunistas os que defenderam e aprovaram esta barbaridade. Comunistas tem como principal objetivo a organização dos trabalhadores contra a exploração a que são submetidos num regime capitalista. A direita luta para manter a exploração e destruir a organização dos trabalhadores. Comunistas lutam para substituir o sistema capitalista por uma sociedade justa. A direita luta para preservar a injustiça em benefício próprio. A tática dos comunistas é aliar-se com todos os que representem os interesses dos trabalhadores, em maior ou menor escala, sempre do lado de cá. A tática da direita é cooptar lideranças dos trabalhadores para quebrar sua resistência enquanto classe. Comunistas não tem dúvidas sobre a classe que representam pois é esta consciência que os faz comunistas. É esta consciência que nos une e nos dá a direção da luta. Quando explorados se unem a algozes, um dos dois está errado. Não há dúvida.

O sucateamento ideológico do PCdoB catarinense começou quando se juntou ao governo da chamada tríplice aliança (PMDB-PSDB-PFL) do governador neoliberal Luiz Henrique, em troca de uma inexpressiva Secretaria de Esportes e mais alguns empregos de menor expressão. O partido permaneceu “sócio” do poder, sem poder atacá-lo como deveria fazer um partido comunista frente a um governo de direita. Nos últimos instantes desse governo que só atacou trabalhadores, o partido tomou a “corajosa decisão política” de abandonar os cargos. Nesse cenário, os “loucos por cargos” começaram a tomar conta da direção do partido. Afinal, eram importantes pois ocupavam cargos. Num círculo vicioso, vinham para a direção porque os ocupavam. Sendo direção, decidiam por alianças espúrias para preservar os empregos que chamam cinicamente de “espaço politico”. Passaram a impedir a participação dos verdadeiros comunistas nas decisões e acabaram com os debates. Acabaram até mesmo com um grupo de discussão na internet, pois começavam a questionar as decisões. Substituíram a ideologia pelo oportunismo e abandonaram a dialética.

Comunistas querem mudar o mundo e para isso é preciso mudar as ideias dominantes. As atitudes da direção do PCdoB em Santa Catarina nos últimos tempos em nada contribuem para romper a alienação reinante. Eram oposição aos Amim, depois se aliam com eles; compactuam em silêncio com os desmandos de Luiz Henrique e no finzinho do governo se fazem de oposição; se aliam de novo ao PMDB contra o PSD no segundo turno de Florianópolis com a promessa de uma secretaria, mas são derrotados. Sem nenhum compromisso com a coerência, o vereador aceita cargo na prefeitura do PSD e é expulso por isso, mas menos de um mês depois a mesma direção decide se aliar com o PSD para a eleição deste ano. O mais incrível de tudo é ver as caras de pau de gente que se diz comunista defendendo essa política esquizofrênica, como se dela dependesse o futuro da humanidade, ou do governo Dilma.

Para os comunistas os cargos parlamentares são espaços para plantar polêmicas, denunciar injustiças, desmascarar as manobras anti-povo e anti-trabalhadores, apresentar projetos que coloquem em cheque o sistema e seus representantes e mobilizar a sociedade para defender mudanças. Assim é possível usar um jogo roubado para ampliar a consciência da classe que a direita e a mídia tanto temem e tanto se esforçam por impedir. O que tem feito nossos parlamentares neste sentido? Quais projetos polêmicos foram apresentados? Quantas vezes chamamos as massas para a mobilização em defesa de seus interesses objetivos? Não percamos tempo tentando lembrar. Nossos parlamentares não entram em bola dividida para não prejudicar os acordos de gabinete com inimigos ideológicos da classe que deveriam representar. Jogam o jogo e aceitam as regras.

Não são comunistas como eu aprendi a ser nos meus 33 anos de militância.

Com a direita, NUNCA! Respeitar decisões do partido? Só se forem sérias e coerentes. Os torturadores sempre se defenderam dizendo que “obedeciam ordens”. Criaram até a teoria da “obediência devida” na Argentina. Se até o Direito diz que ninguém é obrigado a obedecer ordens manifestamente ilegais, este princípio se aplica também na Política. Não sigo orientações manifestamente contrárias aos princípios que me fizeram comunista. Ao contrário, porque sou comunista, por coerência, tenho obrigação de descumprí-las e denunciá-las.

Não voto em candidatos de direita nem em quem se alia a eles. Acho que ninguém que se considera de esquerda deve votar em quem trai nossa classe. Ajudar a eleger governos de direita não contribui para a luta dos trabalhadores. Não votarei nos candidatos do PCdoB em Santa Catarina que defenderam esta aliança com opressores. E não me venham com seus ridículos argumentos pois eles ofendem a inteligência de qualquer um. Talvez a única forma de depurar a sucata ideológica em que se transformou o PCdoB catarinense e resgatar os princípios que movem um partido de classe seja não eleger ninguém. Pode ser que assim, sem ter mais nenhum interesse pessoal em cargos ou vantagens materiais, os oportunistas sigam em frente, procurem partidos mais apropriados aos seus anseios eleitoreiros e deixem o partido comunista para os trabalhadores organizarem a luta da classe cujas principais batalhas se dão nos locais de trabalho e nas ruas e não no parlamento. Certa vez fiz uma reportagem numa fundição, dessas onde se derrete ferro para moldar peças. Quando vi uma montanha de sucata na fábrica perguntei do que se tratava. Explicaram que é melhor derreter ferro que já foi fundido uma vez pois ele tem menos impurezas que o minério bruto.

A foice e o martelo do PCdoB podem ter virado sucata pelo mau uso, mas as ideias que este símbolo representa ainda são a melhor substância para transformar o mundo.





Invasão da UFSC não tem nada a ver com maconha

26 03 2014

Foto policia UFSC

Quando tomei conhecimento da invasão da Universidade Federal de Santa Catarina, ontem, 25 de março, por policiais federais não identificados, já imaginei o teor das notícias da mídia no dia seguinte tentando dividir os atores em os que são a favor da maconha e os contra. Afinal, uma das formas mais comuns de manipular informações é desviar o foco do principal para uma falsa polêmica e esta mídia é a mesma que apoiou o golpe militar em 64. Vamos reler os fatos.

Em primeiro lugar os policiais que iniciaram a ação, não se identificaram como tal, tampouco tinham ordem judicial para prender gente. Sem se identificar, não estão efetuando uma prisão, estão realizando sequestro exatamente como os que são lembrados às vésperas do aniversário de 50 anos da ditadura militar. Nem o carro em que chegaram era identificado. São práticas típicas da polícia política da ditadura. Como saber se o estudante estava sendo preso ou sequestrado? Quem sabe até por narcotraficantes? Além do mais qualquer operação policial dentro de uma Universidade Federal deve ser comunicada à Reitoria antes e negociada de comum acordo. Ninguém pode invadir uma Universidade e sequestrar estudantes. Isto acontecia, repito, na ditadura quando tínhamos um Estado sem leis e os direitos individuais estavam suspensos.

E também vamos parar com o moralismo de tratar maconha como se fosse pior que drogas legais, tipo cigarro, que mata e ninguém se importa. É que o tabaco enche os cofres de multinacionais que o exploram diretamente e da indústria de medicamentos e equipamentos médicos usados para tratar da epidemia de câncer provocada por esta droga.

Polícia que não se identifica está agindo como bandido, fora da lei, e foi tratada como bandido pelos estudantes até descobrirem do que se tratava. Ouvi o tal delegado no rádio dizendo-se ofendido pela nota da Reitoria que repudia a invasão, chamando a reitora de irresponsável e acusando-a de querer transformar a UFSC numa “república de maconheiros”. Disse quase a mesma coisa no Jornal Nacional (Está ficando famoso). Exatamente o mesmo discurso da imprensa comercial. Aqui vale uma observação. O Delegado Cassiano é muito jovem, deve ter passado nesses últimos concursos que são disputados por uma nova categoria chamada de concurseiros. Nada posso afirmar do delegado pois não o conheço. Mas conheço muitos outros.  Estas pessoas são na maioria jovens que, tão logo recebem o diploma, se ocupam unicamente de estudar e viajar pelo Brasil fazendo concursos, em geral, às expensas da família já que, para tanta atividade, não é possível trabalhar. Um dia são aprovados e passam a ser um juiz, um procurador, um delegado, investidos de autoridade de Estado sem que tenham experimentado a vida real. Muitos desses conhecem o mundo pelas páginas da Veja, assinada pelos pais. Espera-se que o Ministro da Justiça e o Ministério Público Federal abram inquérito e processem este delegado  por desacato e total despreparo emocional para o exercício da função. A Polícia Federal há muito tempo é um órgão sério empenhado como poucos no combate à corrupção e aos crimes de colarinho branco e não merece ser julgada por atos despropositados e preconceituosos como este. Irresponsável ao extremo é o delegado que mandou lançar gás lacrimogênio e outros artefatos do gênero contra estudantes desarmados na hora da saída das crianças do Colégio Aplicação e outras duas escolas infantis existentes no local onde se deu o triste episódio. Li no jornal que o delegado está substituindo o superintendente – presumivelmente em férias. Dá a impressão de que aproveitou a ausência do titular e da momentânea investidura no Poder para buscar seu minuto de fama armando uma operação espetacular. Para que? Para capturar os donos do tráfico? Não. Para vasculhar Jurerê Internacional onde foram presos magnatas do tráfico há pouco tempo pela própria Polícia Federal? Não. Para pegar os traficantes que abastecem de crack os morros de Florianópolis? Também não. A operação desastrosa tinha por objetivo pegar “perigosos” estudantes de Ciências Humanas que fumavam um baseado sem colocar em risco a vida de ninguém! Para isso o delegado foi responsável pela invasão de um campus universitário, cheio de jovens estudantes, por soldados armados da Polícia de Choque! Ainda bem que os estudantes também estavam armados com suas câmeras. O vídeo abaixo mostra o poder de fogo de uma lente afiada.

A Polícia Federal não tinha nada mais importante para fazer? A sociedade brasileira espera muito mais dessa instituição. Espera que prenda os óbvios donos da droga apreendida no helicóptero dos Perrela. Espera uma operação para desvendar os casos de corrupção ambiental que saltam aos olhos de qualquer cidadão de Florianópolis. Espera que prenda o Presidente da Assembléia Legislativa de SC, envolvido em crimes de colarinho branco. Ocorre que criminosos grandes são sempre protegidos pela mídia e tratados como vítimas quando investigados. Lembram do banqueiro Daniel Dantas que preso por corrupção, com mandado judicial, tentou subornar o Delegado Federal? Para a mídia o banqueiro foi vítima e o delegado bandido. Talvez o estudante sequestrado, por portar alguns cigarros de maconha, seja a chave para desbaratar uma quadrilha internacional de tráfico de drogas! Uau! Não sejam ridículos. Todos sabem que um mero usuário final compra a droga na esquina e jamais vai levar aos magnatas do tráfico, simplesmente porque não tem a menor ideia de quem sejam. Quem tem obrigação de saber é a polícia e para tanto deve fazer como faz com a corrupção, planejando e executando por anos operações de inteligência conjuntamente com o Ministério Público e a Justiça Federal, tudo dentro da lei. A Polícia Federal sabe fazer isto muito bem. O Delegado Cassiano, no entanto não tinha nenhum interesse em combater o tráfico na raiz como deveria ser sua atribuição. Se tivesse esta intenção, o último lugar provável para encontrar alguma conexão seria a Universidade. Ele atuou com abuso de poder, que é crime, pois não tinha mandado para invadir uma universidade federal. Atuou aparentemente para atender interesse particular e não público (fama momentânea e espaço na mídia, sabe-se lá com que outras intenções) o que pode configurar, se apurado, crime de prevaricação. Efetuou prisão de forma clandestina pois não se identificou como polícia, o que também é crime. Somente quando a confusão foi formada os policiais se apresentaram como tal, de acordo com todos os depoimentos de professores e estudantes que presenciaram o fato.

O delegado, que talvez se sentisse melhor trabalhando no DOI-CODI do regime golpista, realizou uma “operação” pirotécnica ilegal em conluio com a Polícia de Choque que evidentemente estava a par e a postos para o assalto e operações dessa natureza não se realizam sem preparação logística prévia. O governador, que comanda a polícia militar, está devendo explicações embora a autointitulada “imprensa profissional” tenha esquecido de fazer esta ligação, colocando como centro do problema não os atos abusivos do delegado e da polícia, mas reduzindo-a a uma simples questão de ser a favor ou contra a maconha. Uma das formas mais comuns de manipulação da informação pela imprensa comercial é desviar o foco da atenção do principal para um problema secundário de ordem moral sobre o qual as pessoas já tem opinião formada. Dessa forma o debate fica resumido a uma briga de torcidas de times de futebol na qual ninguém vai abrir mão do seu time. Enquanto isso, o que deveria ser debatido, fica fora da pauta.

Por fim uma última observação. Não deixa de ser curioso que o delegado tenha escolhido para sua operação ilegal justamente o momento em que os saudosos da ditadura se assanham, incentivados por Veja, Rede Globo e outros veículos de comunicação que apoiaram o golpe militar. Assistimos há alguns dias até mesmo a tentativa de realização de uma patética marcha, com cartazes pedindo expressamente a volta da ditadura. A ação isolada deste delegado despreparado deve ser veementemente repudiada por toda a sociedade catarinense e principalmente pelos seus próprios colegas que tem prestado, via de regra, excelentes serviços ao país.

Quando você, que está lendo este texto, se posicionar sobre a invasão da UFSC, preocupe-se em dizer se é a favor ou contra uma polícia que age fora da lei e dos limites impostos ao Estado pela Constituição, para proteger os cidadãos. Esta é a questão principal deste debate. Os cinco cigarros de maconha só estão ai para desviar sua atenção. Não fique chapado com as interpretações da “imprensa profissional”. Ela é muito mais poderosa que a maconha para confundir sua percepção da realidade.

Inúmeras manifestações contra a ditadura estão sendo organizadas em todo o país. Elas tem por objetivo repudiar qualquer tentativa de assaltar o poder para atender interesses particulares de pessoas ou grupos minoritários. As que vão ocorrer em Florianópolis são a melhor oportunidade que temos para dizer não ao autoritarismo e repudiarmos qualquer forma de ataque à democracia, como o que ocorreu na UFSC. Muita gente prefere que fiquemos discutindo a maconha em vez de lembrarmos nosso passado para evitar que ele volte. Que nos encontremos todos na rua, dia primeiro de abril às 17 horas.

Cartaz Manifestação





Uma Muralha do tamanho da China

8 02 2014

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Hoje quando subi uma escada do metrô senti o cansaço nas pernas, mas não é a idade não. É reflexo da trilha mais pesada que fiz até hoje, na Grande Muralha, no dia anterior. Depois vou escrever sobre a China e sua realidade econômica, política e social, três chaves fundamentais para entender este país e sua mistura de comunismo com capitalismo. Em pouco mais de duas décadas a China, que não era nada no contexto econômico mundial, transformou-se numa potência sem abrir mão de regras próprias e soberanas. Outro aspecto que precisa ser entendido é o sistema político vigente. É uma Democracia? Nós somos uma Democracia? Afinal quem está mais próximo desse conceito um tanto abstrato nos nossos dias? Por último é necessário fazer um balanço dos custos e benefícios dessa revolução econômica para o povo. Mas isso é assunto para outros posts.

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Agora vou falar da Grande Muralha que explica um pouco da força histórica e cultural desse país. Oficialmente ela tem em torno de 7 mil km, mas há quem diga que tem bem mais e, quando foi concluída, circundava o então território chinês que hoje é muito maior. sua construção começou entre trezentos e duzentos anos antes de Cristo e foi concluída (como está hoje) no século XV, na dinastia Ming.

Parte dela está em ruínas e outra parte restaurada. Eu e minha filha, que mora aqui, fizemos ontem uma caminhada numa das partes mais difíceis que se pode chegar sem autorizações especiais, que tem trechos restaurados e outros em ruínas.

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Além da montanha que já é inóspita, tem a altura do muro

A China é um país montanhoso, parecido com as montanhas de Minas Gerais, só que mais altas, como pude ver de cima ao chegar. Quem já sobrevoou Minas, vai entender e as fotos confirmam. A muralha foi construída subindo e descendo sempre pela parte mais alta das montanhas. Imaginem a coluna vertebral de um dragão com aquelas saliências ponteagudas e a muralha construída sobre elas de modo que é quase impossível subir pelos paredões laterais naturais, quase verticais, acrescidos do muro que é altíssimo, variando de uns 4 a 6 metros. Chegamos num ponto de acesso a 3 horas de Beijing (Pequim) por estradas excelentes. Dali, subimos por uma trilha consolidada, até entrarmos no dorso da muralha pelo qual seguimos por três horas para percorrer os 6 km do percurso mais difícil. Já de início a dificuldade é tanta que quase dá vontade de desistir. São subidas quase verticais, com degraus com o dobro da altura e metade da profundidade dos que estamos acostumados. Só cabe a ponta do pé.

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Isto não é uma parede, é uma escada

De trechos em trechos existem torres. Percorremos 22 delas. Várias dessas “escadarias” para chegar nas torres são muito longas e algumas em ruínas o que dificulta ainda mais a subida ou a descida do outro lado. Muitas vezes temos que usar pés e mãos para não cair. Em algumas o parapeito foi destruído e se alguém escorregar para o lado cai de uma altura de dez metros. Conforme avançamos, a dificuldade só aumenta, mas parece que vamos nos acostumando. Numa das últimas subidas, antes da vigésima segunda torre, chega a dar fadiga na musculatura das pernas forçando uma parada no meio da subida para relaxar por alguns momentos antes de seguir. Cardíacos ou hipertensos, não devem encarar. O tempo todo pensei na Luciane, na Joyce e na Cristiane, minhas fadas do pilates, RPG e acupuntura que garantiram o sucesso da trilha duríssima, sem nenhum problema. Mérito também para o néctar dos deuses gaudérios, que me acompanhou na empreitada.

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A muralha é tão bem feita que dá pena dos inimigos que se aventuraram a tentar vencê-la. É uma obra colossal feita num tempo quando não haviam as máquinas de construção que tornam tudo mais fácil hoje em dia, nem helicópteros para levar material a lugares tão inóspitos. Sua construção é um feito tão grandioso quanto as pirâmides ou o crescimento econômico absurdo do país em tão pouco tempo, enquanto o capitalismo vive suas maiores crises. Quando vierem à China conheçam a muralha e vão pelo caminho mais difícil. É imperdível. As fotos dão uma idéia do que falei. A Grande Muralha, pela sua grandiosidade, pode ser comparada ao tamanho da China hoje no cenário mundial.

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Alguns pontos não restaurados são mais difíceis

Em ruínas 





Por baixo do grafiti do Armazém Vieira

10 11 2013

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Há muito mais sob o grafiti do Armazém Vieira, em Florianópolis, do que a fachada de um prédio histórico. Encoberto pelo debate sobre arte urbana contemporânea está o golpe do projeto de Plano Diretor que o prefeito quer aprovar de uma hora para outra sem que o povo sequer o conheça direito.

Primeiro vamos falar do grafiti, pois ele faz parte do espaço urbano da nossa capital, conceito varrido do mapa pelos especuladores que dominam o poder político local distribuindo sacos de moedas a vereadores nativos corruptos que fazem do mandato meio de vida.

A questão é: um prédio antigo deve ser mantido exatamente na sua pintura original ou é possível alterá-la sem comprometer a construção e o que ela significa como registro histórico? Considero um absurdo apagar uma obra de arte. É um crime contra a humanidade. É ridícula a determinação de um órgão público (o IPUF) que obriga a pintar com uma cor morta e sem arte um prédio como o Armazém Vieira, depois que sobre ele foi construída uma obra de arte. Nada será mais belo que o maravilhoso grafiti que lá está. Ele é patrimônio artístico-cultural da comunidade humana. Seria quase como limpar a tela de um Dali só porque alguém acha que o entalhe da sua moldura é mais importante que a tela. Dirão arquitetos que o desenho da fachada, com suas portas e janelas talhadas em madeira ao estilo da época, assim como os detalhes do reboco e as proporções da construção somente se expressam como elemento estético do seu tempo, quando realçados por uma pintura neutra que valoriza cada detalhe. Têm certa razão, mas não toda. No caso, temos uma espécie de simbiose entre duas obras de arte: a arquitetônica – espacial, tridimensional, concreta e estética – e a pintura, ao mesmo tempo concreta e abstrata, emocionalmente mais intervencionista e também de altíssimo valor estético, que atua sobre a primeira.

A arte da segunda metade do século XX (pelo menos o que há de novo nesse período) é marcada pelas grandes ocupações dos espaços públicos, confundindo-se muitas vezes com a arquitetura. Talvez Niemeyer seja a maior expressão desta ideia. É exatamente ao sair dos museus, comumente frequentados por uma pequena parcela da população e tomando as ruas sem pedágio ou ingresso pago, que a arte revela sua veia revolucionária ao tornar-se acessível a todos. O velho Marx já alertava que “a propriedade privada nos fez tão idiotas e passivos que um objeto só se torna nosso se o possuímos, ou seja, se ele existe para nós enquanto capital ou se é usado por nós”. A arte das ruas quebra esta lógica assim como os prédios do nosso grande arquiteto vermelho e assim como o grafiti do Armazém Vieira.

A intensidade do impacto sensorial sobre as pessoas causada pelo prédio do Armazém com e sem o grafiti é incomparável. Pintado com as cores originais é um prédio antigo bonito que causa impressão sensorial, principalmente quando tudo em volta segue padrão meramente funcional e sem graça. Já o belíssimo grafiti sobreposto ao prédio causa emoções muito mais intensas e de outra natureza sobre a alma humana.

Sem Grafiti

O prédio grafitado foi valorizado pelo registro histórico autêntico da cultura de hoje que absorveu o antigo e conectou-o ao presente revitalizando-o. O Armazém Vieira está intacto na sua construção preservando o valor arquitetônico e agregando mais. O exterior foi embelezado pela intervenção artística contemporânea e juntamente com o interior intacto, conserva toda a sua História. A pintura conecta o prédio com uma geração que nasceu expoliada, excluída, mas encontrou formas de resistência criativa no grafiti e no hip hop. Eles não tiveram tempo nem espaço para se preocupar com a diferença entre um prédio antigo ou uma casa velha. Apesar disso conseguem sentir o que significa mudar as coisas quando pintam e deixam a marca de sua classe sobre uma “propriedade” que não podem ter. Uma obra de arte na rua, pode ser apropriada por todos, ao contrário de uma propriedade imobiliária na maior parte das vezes inacessível. Apropriando-se subjetivamente da obra de arte pintada na superfície, o prédio histórico que está embaixo passa a ser respeitado e apropriado também na suas dimensões estética, cultural e revolucionária.

Agora vamos do luxo ao lixo. Não se trata aqui da falácia de atacar o autor para desmerecer a obra, mas de entendermos o mundo em volta para agirmos com mais consequência nas tentativas de transformá-lo. O IPUF, órgão de pseudo controle da ocupação do espaço urbano, personagem deste episódio, é uma fachada a serviço da especulação imobiliária. Ao longo do tempo seu papel tem sido autorizar a destruição de quase todos os prédios históricos da cidade incluindo o quase extinto centro antigo.

Querem cometer qualquer crime contra o patrimônio público em nome do dinheiro? Basta financiar a campanha de alguns vereadores ou deputados que acabam nomeados para o IPUF e resolvem o problema. Casarões belíssimos dão lugar a edifícios de vidro iguais a todos os outros edifícios de vidro. Nem a arquitetura da primeira metade do século XX foi preservada. Crimes bárbaros contra os espaços públicos e a História de Santa Catarina são perpetrados desde sempre por uma burguesia ridícula, provinciana e colonizada que se comporta como uma corte vitoriana, diante da passividade de um povo que se contenta com migalhas, sem noção do que lhe pode ser de direito se lutar por isso.

O caso do Armazém Vieira pode servir de estopim para fazermos a discussão sobre este estupro que o prefeito está cometendo ao empurrar um Plano Diretor sem discussão séria e a toque de caixa.

Qual a pressa? Seus financiadores de campanha estão ansiosos para construir nas dunas? Para derrubar prédios históricos? Para ocupar espaços públicos? Qual a dificuldade de fazer uma discussão séria por seis meses que seja? Um texto legal é cheio de armadilhas que a maioria das pessoas não entende e mesmo os especialistas precisam estudar detalhadamente comparando suas disposições com o mundo real sobre o qual vai gerar efeitos. O prefeito, que é esperto, faz reuniões em que só ouve cidadãos isolados reclamarem do buraco em frente a casa e se faz de surdo quando alguém tenta discutir organização do espaço público sob o prisma dos interesses coletivos das pessoas que vivem nele e não das construtoras que o enxergam como objeto de lucro.

A arte de rua, como o grafiti, não deveria também ser objeto de um Plano diretor sério? Chega de assistirmos passivos às tentativas de estabelecer limites para a arte e para a preservação do meio ambiente enquanto se tenta justificar a destruição da cidade em nome do “desenvolvimento”, como se destruir fosse a única forma de desenvolver.

A arte é intervenção política e é através dela que talvez possamos redimir a humanidade de um destino medíocre. À luta! Pela preservação do grafiti no Armazém Vieira! Pela suspensão da tramitação do Plano Diretor de Florianópolis! Pela defesa e ampliação dos espaços públicos!

O que precisa de limites é a especulação imobiliária, não a arte.  





On the Rocks (and Roll)

8 11 2013

WhiskyFaz muito tempo que não sento num bar com bloquinho e caneta. Demasiado tempo. Os efeitos da abstinência textual são evidentes.  O papel escapa da tinta, se esquiva. Alguma coisa em meu cérebro desconecta. O processador de palavras trava, mas alguma coisa se salva.  A incrível beleza das pedras de gelo imersas no líquido dourado sobre a mesa operam um milagre e desato a escrever. Para alguns, gelo no whisky é uma heresia tão grave quanto colocá-lo no vinho. Fodam-se. Vinícius, Tom e os outros bossanovas bebiam assim e a turma do Pasquim também. Todos bebiam muito whisky com gelo.  Se a combinação produz poesia, música e Pasquim, bebamos todos whisky com gelo. Além do mais um copo de whisky com gelo é infinitamente mais bonito que um martelinho puro. Saúde!

No meio de uma seleção com Beatles, Stones e Eric Clapton, toca agora Hey Jude e ouvindo-a sempre lembro de minha filha com seis anos de idade num dos meus fins de semana de pai separado, assistindo Paul Mc Cartney na Pedreira Paulo Leminski em Curitiba. Chovia sobre as 50 mil pessoas que cantavam juntas as canções dos Beatles e permaneciam indiferentes quando ele cantava as suas. Até hoje é assim. A maioria das pessoas, como eu, nos protegíamos da chuva com sacos de lixo grandes pois os estoques de capas de qualquer natureza esgotaram-se em todos os supermercados. Mas Bibiana usava uma capinha de plástico como aquelas que se compra em qualquer esquina de Amsterdam, que consegui comprar em algum lugar. Ela experimentava seu primeiro mega-show, montada em minha garupa e cantarolava o lá, lá, lá, lá de Hey Jude fazendo coro com a multidão naquele lugar mágico. Experiências assim fazem parte de uma boa educação. Não sei até que ponto as coisas que proporcionamos aos filhos são determinantes do que eles serão. Eu fui criado para ser um sujeito normal, e fazer tudo igual, mas consegui sozinho alterar meu destino aprendendo a ser meio louco, na loucura real. Sempre contestei essa normalidade hipócrita e injusta que nos tentam impor meia dúzia de poderosos. Nesta condição, sempre desejei que minha filha fosse simplesmente uma pessoa livre e sou um pai feliz pois ela conseguiu. Mais ou menos nessa época, depois da separação, quando minha convivência com ela passou a ser mais intensa e integral nos nossos fins de semana e férias, em algum momento qualquer eu observava extasiado as coisas que ela fazia e pensava e comentei: veja que coisa incrível filha, tu és um pedacinho meu e um pedacinho da tua mãe! Devo ter chorado de emoção quando ela respondeu prontamente: e um pedacinho meu, né pai. Aquela frase simples, espontânea e profunda, foi a demonstração de uma incontestável consciência de independência e liberdade em estado puro que o tempo mostrou irreversível. Ou não, tanto faz. O importante é que ela seja o que bem entender. Essa é a ideia. A árvore e o livro são meros coadjuvantes.








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