EDITORIAL

O futuro a deus pertence

Se é verdade, segundo os gregos, que o passado nem aos deuses é dado mudar, e o futuro a deus pertence – segundo a sabedoria popular de minha avó – a única coisa que realmente temos é este instante eterno chamado presente. Estou falando das coisas tipicamente humanas, animalisticamente humanas, como gostar, odiar, amar, detestar, que, em resumo são todas uma só: o querer; querer alguém, querer uma coisa, querer fazer alguma coisa ou não querer alguém, não querer uma coisa, não querer fazer coisa nenhuma ou até querer que alguma coisa aconteça.

A realização dos quereres é o que nos deixa felizes e o estado de felicidade é a grande expectativa humana. Quando uma enorme quantidade desses quereres não se realiza, chegamos a uma existência como a da espécie humana no início do seu século XXI. Alguém já disse – não fui eu mas concordo – que o século XX foi marcado por uma aceleração da História. De fato, com o controle das pestes que até pouco tempo antes mantinham um certo controle populacional e com o Estado Democrático de Direito, legado pela modernidade para uma parte considerável da humanidade, esta passou a ter certeza de ser a espécie dominante sobre o planeta. O desenvolvimento científico acelerado do século recém passado permite ao homem coisas impressionantes como a capacidade de destruir o planeta umas setenta vezes se levamos em conta a quantidade de bombas atômicas oficialmente divulgada pelo seleto grupo que as possui.

Enquanto todas as demais espécies tratam instintivamente de aprender a sobreviver, os humanos lançam a cada ano novas armas capazes de matar com mais eficácia outros humanos que não querem morrer tampouco sabem porque estão sendo mortos por outros da mesma espécie. A ciência nos permite afirmar a idade de um pedaço de qualquer coisa calculado em milhões de anos, embora nossa existência individual em raros casos passe dos 100 anos. O problema é que fomos dotados de um hardware, o “HomoSapiens 20.000.000″ e um software chamado Razão, avançados demais para o operador que não consegue utilizá-los direito. Qualquer dia a profecia do grande filósofo Raul Seixas poderá se concretizar. Ele viu o planeta como um cachorro que não agüentando mais as pulgas se livra delas num sacolejo.

E daí? Debaixo do Viaduto do Chá dormem pessoas que não tem a menor idéia de quantas vezes o mundo pode ser destruido pelos humanos. Debaixo do Viaduto do Chá dormem pessoas que não tomam chá.

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