Não quero ir para o Céu

9 05 2017

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Artistas não perdem a oportunidade de registrar protestos escondidos em suas obras. No Museu Nacional de Belas Artes, em Havana, um quadro retrata cena deplorável, fruto da aliança espúria e conveniente entre monarquia e igreja católica que, juntas, invadiram a América a partir do século XVI. Tudo bem, Colombo teria chegado um pouquinho antes, mas não vem ao caso como diria um certo juiz. A tela é de 1930, quando na Cuba ainda colonial, embora documentos a dissessem independente, a Igreja Católica sentava-se ao lado do poder político.

Na pintura, do cubano Augusto García Menocal, um indígena está amarrado no centro de uma fogueira onde em instantes será queimado vivo. Seus algozes não são selvagens bárbaros. São padres e soldados espanhóis que organizaram a execução do índio cuja terra acabou de ser invadida. A estapafúrdia justificativa para os assassinatos em massa perpetrados pela cruel aliança era – como ainda parece ser – a conversão de todos os humanos ao cristianismo. O protesto do pintor não está apenas no conteúdo da obra, de violência explícita, mas no título: “No quiero ir al cielo”.

A frase reflete o pensamento do condenado cuja consciência de si mesmo era muito mais avançada filosoficamente que o dogmatismo religioso vigente na época retratada. Os povos originários da América não dispunham em suas línguas de expressões para “futuro” e “passado”, simplesmente porque a ideia de tempo dividido em partes lhes era impensável. Para eles o tempo era único como um instante eterno que se projeta para a frente e para trás abarcando tudo ao mesmo tempo e agora. Já estavam, portanto, muito mais próximos da teoria quântica do que a maioria dos humanos de hoje. Promessas de céu, paraísos e outros benefícios post morten não faziam o menor sentido.

Transportemo-nos para cena. Um homem pálido, completamente envolto em panos do qual só se vê a cara e as mãos, em pleno calor tropical, protegido por um exército tecnologicamente superior, pergunta ao indígena nú, tranquilo e de inocente boa fé, numa língua incompreensível, se ele se arrepende dos seus pecados e aceita Jesus, Deus, o Rei, o Papa e uma tal de religião, garantindo assim um lugar no céu depois de morto.

Ainda que o indígena dispusesse de um aplicativo de tradução instantânea só poderia responder algo como: estás louco cara pálida? Estou muito bem aqui, não estou preocupado com a morte, sou parte dessa natureza que é minha mãe e me protege e a quem protejo. Eu não quero ir para céu algum.

Ainda que os padres e os soldados tivessem entendido a resposta, não estavam ali para discutir filosofia. Estavam interessados apenas em eliminar testemunhas da expropriação que se iniciava de um continente e suas riquezas. E então começou mais um genocídio.

Odeio reis e igrejas.








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