A doce enganação de todo dia

16 03 2017

A Globo mostrou ontem, no Jornal Nacional, uma matéria sobre as grandes manifestações em quase todas as capitais contra a Reforma da Previdência. Estranhei, mas logo em seguida veio o contraponto. As manifestações foram muito grandes e importantes. Maiores que as do Impeachment. Não poderiam deixar de mostrar e fizeram disso uma forma de “falar diretamente” com quem foi para a rua e quem apoiou sem ir. Este é o público perigoso para os interesses da turma que quer “salvar o Brasil” junto com os da lista do Janot.
A matéria seguinte, com aproximadamente o mesmo tempo dedicado a cobertura aparentemente neutra das manifestações, mostrava como a agência de risco Moody’s melhorou a classificação do Brasil que saiu do negativo para o estável. Claro que não explicam nada sobre o que isso quer dizer, nem que o país continua classificado no nível “especulativo”. Tampouco explica que tais instituições servem aos milionários especuladores do mercado internacional de capitais e não aos interesses nacionais e dos trabalhadores. Mas, quem ouve e confia em tudo o que a mídia diz, tem a sensação de que as coisas estão melhorando com o governo Lavajato (grande parte da coalizão está na Lista do Janot). Complementando a notícia, a Globo explica que esta “melhora” do Brasil, segundo a agencia, se deve à perspectiva de aprovação das reformas da Previdência e trabalhista “propostas pelo Governo” que vão ajudar o país a se recuperar da crise. Até o Temer aparece defendendo as Reformas num fórum de empresários. Ou seja, o desavisado assiste, não se informa, e pensa que as reformas estão corretas, não são tão ruins assim  e que as manifestações estão equivocadas.

Na semana passada o Jornal da Globo abriu a edição de segunda-feira com Willian Waak em tom dramático-bravo afirmando que os dados divulgados pelo governo confirmam a “maior recessão da história do país” e que ela é resultado de anos de políticas econômicas equivocadas dos “governos anteriores”. Segundo ele (que empresta a cara  ao patrão mega capitalista), o “Nacional desenvolvimentismo” provou que só leva ao desastre. Ou seja, fez o combate ideológico defendendo o neocolonialismo.

Fico pensando qual o modelo ideal para os grandes capitalistas como os Marinho. Se não é o “Nacional Desenvolvimentismo” deve ser obviamente o “Internacional  desenvolvimentismo”, ou seja, o desenvolvimento dos outros e não o nosso. Ou talvez um “Nacional Retrocessismo” que seria um desenvolvimento para trás, mas que, de qualquer forma, levaria ao mesmo lugar. Para eles não devemos perder tempo e dinheiro investindo em desenvolvimento de indústrias e tecnologias nacionais. É mais fácil trazer produtos e empresas estrangeiras que já estão prontas e desenvolvidas para atuar no Brasil, ainda que levem embora os lucros para seus países de origem. Assim, o desenvolvimento do Brasil no entendimento desses senhores seria consumir produtos e tecnologias produzidos fora, por outros países. Exatamente ao contrário do que fizeram justamente esses grandes países com economias fortes e industrializados. O Japão mesmo destruído na II guerra, duas décadas depois assombrava o mundo com seus carros e eletrônicos de ponta todos produzidos por indústrias genuinamente japonesas e com tecnologia própria desenvolvida no Japão. Chegaram a isso através de políticas de governo “nacional-desenvolvimentistas”. Como estariam se tivessem em vez disso aberto as portas para empresas estrangeiras tomarem conta? O Japão não exporta automóveis Ford, Chevrolet, Volkswagen, Fiat ou Renault. Exportam Hondas, Toyotas, Nissans, cujo lucro é injetado na economia japonesa. A Coréia não tem fábricas de automóveis de marcas estrangeiras. O país desenvolveu suas próprias indústrias e tecnologias. Exportam Hyundais, Kias, Daewoos, SsanYongs e o país fica mais rico com isso e mais poderoso com o domínio das tecnologias. Nem é preciso falar em EUA, Alemanha, França, Inglaterra, Itália e Canadá que, com o Japão formam o G7. Todos apostaram no desenvolvimento nacional e em políticas de Estado que contribuíram para torná-los potências econômicas. Claro que esses poucos países precisam mercados para vender seus produtos e se tornarem ainda mais ricos. Para isso vendem seu principal produto: a ideia falsa de que desenvolvimento é comprar pronto (deles, é claro). O Brasil tem sido um paraíso. Quais são as marcas nacionais de automóveis? Nenhuma. Nossos carros são feitos por fábricas brasileiras da Ford, Chevrolet, Volksvagem, Fiat, Renault, Peugeot, Citroën, Honda, Toyota, Nissan, Hyundai, Kia, Chrysler, com tecnologia pertencente aos seus países de origem aos quais pagamos royalties e remetemos lucros de riquezas produzidas e vendidas aqui. Se a Globo – e o restante da grande mídia brasileira – existisse nesses países e seus governos seguissem as opiniões midiáticas eles jamais teriam se desenvolvido.

Mas a globo e a mídia empresarial enganam facilmente as mentes que se recusam a pensar pela própria cabeça e convencem a maioria que ela deve continuar confiando neles para conduzir o Brasil e não devem se meter em aventuras por mudanças. A ideia que essas empresas plantam nas cabeças é a mesma de quando se opõem ao nacional-desenvolvimentismo. O povo não precisa desenvolver pensamento próprio, basta repetir o que a mídia prega. O Brasil não precisa de tecnologia nem indústrias próprias, basta pagar pela inteligência dos outros enquanto continuamos ignorantes. Basta acreditar na mídia e ficar sem aposentadoria nem direitos trabalhistas. Alguém vai ganhar com essas ideias e não é o povo brasileiro nem seus trabalhadores. Descubra quem ganha e terá os nossos inimigos. Ou se deixe enganar todo o dia. É como sentar num trem confortável que segue em direção ao abismo apreciando a paisagem pelas janelas (ou telas planas) laterais sem olhar para a frente.

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