Não há guerra na Palestina

26 07 2014

Tanque

Não há guerra na Palestina, há extermínio de pessoas como quem passa o trator sobre um formigueiro. Para que haja uma guerra, pressupõe-se que exista um mínimo equilíbrio de forças, então vejamos. O comandante da Força Aérea Israelense, Anair Eshel, afirmou em maio passado sobre o poderio bélico de Israel que “as nossas capacidades ficam em segundo lugar, perdendo apenas para os EUA, a partir de um ponto de vista ofensivo como defensivo” (1). Os palestinos não tem nem um ultra-leve. O exército de Israel possui os mais modernos armamentos como drones aéreos e terrestres, centenas de tanques com armas de última geração, navios de guerra e submarinos. Seu exército regular é formado por 176.500 militares na ativa e mais 445.000 na reserva. As informações são do site oficial das Forças de Defesa de Israel (2).

Estima-se que vivam em Gaza, um pedaço de terra do tamanho da Ilha de Santa Catarina onde fica Florianópolis, aproximadamente 1,5 milhão de pessoas. Contando apenas os militares da ativa, são mais ou menos um soldado para cada 9 palestinos, incluindo todas as mulheres crianças e idosos, que vivem numa prisão a céu aberto como um campo de concentração. Ninguém sai nem entra sem autorização dos guardas de fronteira que submetem os palestinos às maiores humilhações. A Faixa fica na beira do mar vigiado pela marinha israelense. Ninguém passa nem de dentro pra fora nem de fora pra dentro. Do outro lado tem um muro como o de uma penitenciária de segurança máxima. Este povo prisioneiro não tem tanques nem exército. São prisioneiros em sua própria terra que era muito maior e foi invadida pelos soldados israelenses em sucessivas ações militares desde a malfadada fundação do Estado de Israel, quando os judeus ficaram com 56% da Palestina e os palestinos com apenas 44%. Em 1967, o exército israelense invadiu mais ainda, ficando com 78% do território contra 22% dos palestinos. Em 2006, mais invasões militares e os palestinos ficaram reduzidos a 13% do seu território. A reivindicação deles é pelo menos a volta das fronteiras anteriores a 1967. Alguém acha isto absurdo?

Chamar os bombardeios de Israel de guerra é cumplicidade com o genocídio e com o roubo do território palestino através de invasões militares condenadas até mesmo pela ONU. Os governos do mundo assistem inertes, limitando-se a inócuas declarações diplomáticas. Ninguém propõe um bloqueio a Israel como fazem com a Síria, ninguém propõe uma zona de exclusão aérea como fizeram na Líbia, para impedir os ataques aéreos de Israel. Ninguém propõe intervenção internacional para “proteger os civis”, como fizeram no Afeganistão e no Iraque. Ninguém acusa os governantes de Israel de ditadores sanguinários nem pedem suas cabeças numa bandeja como fizeram com Saddam, Kadafi, Bin Laden ou Bashar al-Assad.

Nada disso acontece porque Israel não é um pais isolado, cujos governantes gostam de cometer atrocidades. É o país no mundo que mais recebe dinheiro dos EUA. Não recebe empréstimo, recebe doações milionárias, chamadas de ajuda, para sustentar a matança. Todos os aviões, a maioria dos tanques e demais armamentos de Israel são fabricados nos e fornecidos pelos EUA. Os restantes são fabricados em Israel em sistema de cooperação tecnológica com empresas estadunidenses e benção dos governos, sejam democratas ou republicanos. Israel é um pedaço dos EUA plantado no meio do Oriente Médio para defender seus interesses estratégicos de controle do petróleo com a grande vantagem de não precisar se submeter às leis, ao Congresso nem à opinião pública do seu país. Mas não há petróleo na Palestina! Não, não há, mas há a localização estratégica para atacar qualquer pais que sonhe em atrapalhar os planos dos EUA de controle da área. Sites militaristas israelenses falam abertamente de planos táticos para atacar Irã, por exemplo.

O jornalista e economista estadunidense Paul Craig Roberts, que entre outras atividades foi editor do Wall Street Journal, e economista do governo Reagan, escreveu esta semana que “como recompensa pela política de genocídio, o governo Obama já está repassando, imediatamente, $429 milhões do dinheiro dos contribuintes norte-americanos, para Israel: é o pagamento pelo mais recente massacre”. Antes que alguém pense que a denúncia é uma tentativa de republicanos atacarem democratas, convém ler outro trecho do artigo: “a Câmara e o Senado já aprovaram resoluções de apoio ao morticínio de palestinos por Israel. Dois Republicanos – o desprezível Lindsey Graham e o frustrante Rand Paul – e dois Democratas – Bob Menendez e Ben Cardin – apresentaram projeto de Resolução ao Senado de apoio ao assassinato premeditado de mulheres e crianças palestinas, por Israel.

A maioria dos políticos e os governos estadunidenses tem banqueiros, mega-investidores e grandes empresários judeus como principais financiadores de suas campanhas.

NÃO EXISTEM MOTIVOS RELIGIOSOS PARA GUERRA

As razões das desavenças entre judeus e palestinos não tem nada a ver com religião como repetem insistentemente os meios de comunicação empresariais, chamados apropriadamente por Paul Craig de “press-titutas”.

As causas dos ataques de Israel e da resistência palestina não estão perdidas em páginas empoeiradas do velho testamento. Judeus e muçulmanos são árabes, filhos de uma mesma terra e com uma cultura comum, com exceção da religião. Na maioria dos países do mundo de hoje católicos, protestantes, budistas ou muçulmanos convivem em harmonia. O Brasil é exemplo disso. Circula na internet um vídeo de uma manifestação há poucos dias em Nova Iorque em defesa da paz na Palestina e pelo fim do Estado de Israel (3). A manifestação foi promovida por judeus ortodoxos! O religioso judeu que aparece conduzindo o protesto, afirma em defesa de tais bandeiras que judeus e muçulmanos conviviam em paz na Palestina até 1948, quando foi criado o Estado de Israel. Ele conta que as mães muçulmanas cuidavam das crianças judias quando seus pais se ausentavam para participar das cerimônias religiosas judaicas, e as mães judias cuidavam das crianças muçulmanas quando seus pais saiam para as suas cerimônias. Que exemplo mais eloquente de convivência respeitosa entre praticantes de religiões diferentes! Muçulmanos não combatem os EUA e Israel porque querem impor o Islã ao mundo. Ao contrário, eles foram vítimas dessa prática de impor religiões a força por parte de países católicos ocidentais durante as cruzadas. Os muçulmanos e árabes combatem os EUA para defender suas terras, seus países e sua cultura, violentamente atacadas, saqueadas e dominadas pelo Império pós-moderno. Os EUA mantém Israel armado até os dentes para garantir petróleo barato em fluxo permanente do Oriente Médio. E o fazem a qualquer custo, incluindo o extermínio, se necessário de povos inteiros quando estes insistem em resistir. Não há nada de religioso nisso.

Imaginem se os EUA, a partir de suas dezenas de bases militares na Colômbia resolvesse invadir a Amazônia brasileira para controlar a água, abundante em nosso país e que cada vez se torna mais valiosa no mundo diante da degradação do meio ambiente. Eles entram no nosso país, cercam a Amazônia com soldados e bases militares, e iniciam um processo de colonização com cidadãos estadunidenses. O que deveríamos fazer? Temos o direito de resistir e tentar expulsar os invasores? Ou não temos este direito? Se começarmos a atacá-los com as poucas armas que temos, em forma de guerrilha, pois é impossível bater de frente sem sermos esmagados, isto dará direito legítimo a eles de revidarem com toda a sua força? Colocarmos como meta prioritária expulsar os invasores seria um ato hostil, desumano ou reprovável? É exatamente isto o que acontece na Palestina. Israel invadiu, cercou, ocupou e instalou colonos judeus nas terras roubadas dos palestinos. Não estamos falando do território do Estado de Israel criado em 1948. Estamos falando dos territórios palestinos invadidos e ocupados a força depois de 1967, sem aval da ONU e com sua condenação. Nada disso se fala na imprensa-empresa a serviço do Império. Eu poderia ter escrito o que transcrevo a seguir, mas talvez fosse “acusado” de “esquerdista”, “comprometido”, “comunista” ou quem sabe deanão diplomático”, então uso as palavras do próprio insuspeito estadunidense Paul Craig Roberts, que esclarece: “todas as press-titutas/press-titutos continuam a dizer sempre a mesma coisa. O mais provável é que essa opinião única e uniforme apenas reflita o treinamento pavloviano da imprensa-empresa ocidental, que sempre, automaticamente, se alinha com Washington. Nenhuma ‘fonte’ quer ser criticada por ‘antiamericanismo’ ou quer ver-se isolada da opinião geral, a única que se ouve, a única que se admite, a única que não pode ser contestada, sob pena de o ‘especialista’ receber ‘nota vermelha’ no boletim.

Então, quando os meios de comunicação falam em guerra, atribuindo culpa recíproca aos dois lados, invasor e invadido, para justificar a matança promovida por Israel como “defesa” dos foguetes do Hammas, estão omitindo os fatos, estão omitindo a verdade, estão negando a legitimidade dos palestinos defenderem seu território. Estão ajudando a convencer leitores e expectadores que os territórios ocupados a força por Israel não devem ser contestados nem devolvidos, que os palestinos não tem direito de defenderem a terra que lhes foi tomada e lutar pela sua devolução. Estão tentando convencê-lo que a culpa pela matança é do povo que está sendo assassinado. Estão escondendo que o objetivo de Israel é expulsar todos os palestinos da faixa de Gaza e se apropriarem também de mais esse território ainda que tenham que matar todos. E depois de Gaza avançarão para os outros guetos em que foi transformada a Palestina, já cercados e isolados, prontos para serem covardemente invadidos.
Protejam-se, portanto, do falso jornalismo e ajudemos todos a defender a causa palestina, antes que precisemos defender o nosso território.

(1) http://israel-livre.blogspot.com.br/

(2) http://ihttp://www.idfblog.com/

(3) https://www.facebook.com/photo.php?v=10204590282743564&set=vb.1429149223&type=2&theater





Direção faz do PCdoB catarinense uma sucata ideológica

1 07 2014

Sucata ideologica

Nada sobrou de comunista no partido comunista depois da minúscuila convenção de cartas marcadas homologar aliança com a direita que comanda Santa Catarina desde que o estado existe. Não são comunistas os que defenderam e aprovaram esta barbaridade. Comunistas tem como principal objetivo a organização dos trabalhadores contra a exploração a que são submetidos num regime capitalista. A direita luta para manter a exploração e destruir a organização dos trabalhadores. Comunistas lutam para substituir o sistema capitalista por uma sociedade justa. A direita luta para preservar a injustiça em benefício próprio. A tática dos comunistas é aliar-se com todos os que representem os interesses dos trabalhadores, em maior ou menor escala, sempre do lado de cá. A tática da direita é cooptar lideranças dos trabalhadores para quebrar sua resistência enquanto classe. Comunistas não tem dúvidas sobre a classe que representam pois é esta consciência que os faz comunistas. É esta consciência que nos une e nos dá a direção da luta. Quando explorados se unem a algozes, um dos dois está errado. Não há dúvida.

O sucateamento ideológico do PCdoB catarinense começou quando se juntou ao governo da chamada tríplice aliança (PMDB-PSDB-PFL) do governador neoliberal Luiz Henrique, em troca de uma inexpressiva Secretaria de Esportes e mais alguns empregos de menor expressão. O partido permaneceu “sócio” do poder, sem poder atacá-lo como deveria fazer um partido comunista frente a um governo de direita. Nos últimos instantes desse governo que só atacou trabalhadores, o partido tomou a “corajosa decisão política” de abandonar os cargos. Nesse cenário, os “loucos por cargos” começaram a tomar conta da direção do partido. Afinal, eram importantes pois ocupavam cargos. Num círculo vicioso, vinham para a direção porque os ocupavam. Sendo direção, decidiam por alianças espúrias para preservar os empregos que chamam cinicamente de “espaço politico”. Passaram a impedir a participação dos verdadeiros comunistas nas decisões e acabaram com os debates. Acabaram até mesmo com um grupo de discussão na internet, pois começavam a questionar as decisões. Substituíram a ideologia pelo oportunismo e abandonaram a dialética.

Comunistas querem mudar o mundo e para isso é preciso mudar as ideias dominantes. As atitudes da direção do PCdoB em Santa Catarina nos últimos tempos em nada contribuem para romper a alienação reinante. Eram oposição aos Amim, depois se aliam com eles; compactuam em silêncio com os desmandos de Luiz Henrique e no finzinho do governo se fazem de oposição; se aliam de novo ao PMDB contra o PSD no segundo turno de Florianópolis com a promessa de uma secretaria, mas são derrotados. Sem nenhum compromisso com a coerência, o vereador aceita cargo na prefeitura do PSD e é expulso por isso, mas menos de um mês depois a mesma direção decide se aliar com o PSD para a eleição deste ano. O mais incrível de tudo é ver as caras de pau de gente que se diz comunista defendendo essa política esquizofrênica, como se dela dependesse o futuro da humanidade, ou do governo Dilma.

Para os comunistas os cargos parlamentares são espaços para plantar polêmicas, denunciar injustiças, desmascarar as manobras anti-povo e anti-trabalhadores, apresentar projetos que coloquem em cheque o sistema e seus representantes e mobilizar a sociedade para defender mudanças. Assim é possível usar um jogo roubado para ampliar a consciência da classe que a direita e a mídia tanto temem e tanto se esforçam por impedir. O que tem feito nossos parlamentares neste sentido? Quais projetos polêmicos foram apresentados? Quantas vezes chamamos as massas para a mobilização em defesa de seus interesses objetivos? Não percamos tempo tentando lembrar. Nossos parlamentares não entram em bola dividida para não prejudicar os acordos de gabinete com inimigos ideológicos da classe que deveriam representar. Jogam o jogo e aceitam as regras.

Não são comunistas como eu aprendi a ser nos meus 33 anos de militância.

Com a direita, NUNCA! Respeitar decisões do partido? Só se forem sérias e coerentes. Os torturadores sempre se defenderam dizendo que “obedeciam ordens”. Criaram até a teoria da “obediência devida” na Argentina. Se até o Direito diz que ninguém é obrigado a obedecer ordens manifestamente ilegais, este princípio se aplica também na Política. Não sigo orientações manifestamente contrárias aos princípios que me fizeram comunista. Ao contrário, porque sou comunista, por coerência, tenho obrigação de descumprí-las e denunciá-las.

Não voto em candidatos de direita nem em quem se alia a eles. Acho que ninguém que se considera de esquerda deve votar em quem trai nossa classe. Ajudar a eleger governos de direita não contribui para a luta dos trabalhadores. Não votarei nos candidatos do PCdoB em Santa Catarina que defenderam esta aliança com opressores. E não me venham com seus ridículos argumentos pois eles ofendem a inteligência de qualquer um. Talvez a única forma de depurar a sucata ideológica em que se transformou o PCdoB catarinense e resgatar os princípios que movem um partido de classe seja não eleger ninguém. Pode ser que assim, sem ter mais nenhum interesse pessoal em cargos ou vantagens materiais, os oportunistas sigam em frente, procurem partidos mais apropriados aos seus anseios eleitoreiros e deixem o partido comunista para os trabalhadores organizarem a luta da classe cujas principais batalhas se dão nos locais de trabalho e nas ruas e não no parlamento. Certa vez fiz uma reportagem numa fundição, dessas onde se derrete ferro para moldar peças. Quando vi uma montanha de sucata na fábrica perguntei do que se tratava. Explicaram que é melhor derreter ferro que já foi fundido uma vez pois ele tem menos impurezas que o minério bruto.

A foice e o martelo do PCdoB podem ter virado sucata pelo mau uso, mas as ideias que este símbolo representa ainda são a melhor substância para transformar o mundo.








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