On the Rocks (and Roll)

8 11 2013

WhiskyFaz muito tempo que não sento num bar com bloquinho e caneta. Demasiado tempo. Os efeitos da abstinência textual são evidentes.  O papel escapa da tinta, se esquiva. Alguma coisa em meu cérebro desconecta. O processador de palavras trava, mas alguma coisa se salva.  A incrível beleza das pedras de gelo imersas no líquido dourado sobre a mesa operam um milagre e desato a escrever. Para alguns, gelo no whisky é uma heresia tão grave quanto colocá-lo no vinho. Fodam-se. Vinícius, Tom e os outros bossanovas bebiam assim e a turma do Pasquim também. Todos bebiam muito whisky com gelo.  Se a combinação produz poesia, música e Pasquim, bebamos todos whisky com gelo. Além do mais um copo de whisky com gelo é infinitamente mais bonito que um martelinho puro. Saúde!

No meio de uma seleção com Beatles, Stones e Eric Clapton, toca agora Hey Jude e ouvindo-a sempre lembro de minha filha com seis anos de idade num dos meus fins de semana de pai separado, assistindo Paul Mc Cartney na Pedreira Paulo Leminski em Curitiba. Chovia sobre as 50 mil pessoas que cantavam juntas as canções dos Beatles e permaneciam indiferentes quando ele cantava as suas. Até hoje é assim. A maioria das pessoas, como eu, nos protegíamos da chuva com sacos de lixo grandes pois os estoques de capas de qualquer natureza esgotaram-se em todos os supermercados. Mas Bibiana usava uma capinha de plástico como aquelas que se compra em qualquer esquina de Amsterdam, que consegui comprar em algum lugar. Ela experimentava seu primeiro mega-show, montada em minha garupa e cantarolava o lá, lá, lá, lá de Hey Jude fazendo coro com a multidão naquele lugar mágico. Experiências assim fazem parte de uma boa educação. Não sei até que ponto as coisas que proporcionamos aos filhos são determinantes do que eles serão. Eu fui criado para ser um sujeito normal, e fazer tudo igual, mas consegui sozinho alterar meu destino aprendendo a ser meio louco, na loucura real. Sempre contestei essa normalidade hipócrita e injusta que nos tentam impor meia dúzia de poderosos. Nesta condição, sempre desejei que minha filha fosse simplesmente uma pessoa livre e sou um pai feliz pois ela conseguiu. Mais ou menos nessa época, depois da separação, quando minha convivência com ela passou a ser mais intensa e integral nos nossos fins de semana e férias, em algum momento qualquer eu observava extasiado as coisas que ela fazia e pensava e comentei: veja que coisa incrível filha, tu és um pedacinho meu e um pedacinho da tua mãe! Devo ter chorado de emoção quando ela respondeu prontamente: e um pedacinho meu, né pai. Aquela frase simples, espontânea e profunda, foi a demonstração de uma incontestável consciência de independência e liberdade em estado puro que o tempo mostrou irreversível. Ou não, tanto faz. O importante é que ela seja o que bem entender. Essa é a ideia. A árvore e o livro são meros coadjuvantes.

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8 11 2013
lucas

belo texto camarada…abstinência textual não se aplica ao seu caso, pois vejo sua dependência latente…não deixe jamais esse vício…perceber e saber fazer uso das palavras é um dom…principalmente quando somos críticos e usamos um viés saudosista…como nossos pais…e os que nos antecederam…histórias bem contadas…prosas…vendo nossos filhos como uma flexa lançada (Kalil), cujo destino não mais nos pertence, mas desejando que acertem o alvo do amor, liberdade e que sejam felizes nesse mundo um tanto caótico…somos um pouco de cada um, como Bibiana falou…menina sábia que acertou o alvo, hoje vive o mundo feliz…com ou sem gêlo…vc decide! abraços…Cab.

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