Por baixo do grafiti do Armazém Vieira

10 11 2013

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Há muito mais sob o grafiti do Armazém Vieira, em Florianópolis, do que a fachada de um prédio histórico. Encoberto pelo debate sobre arte urbana contemporânea está o golpe do projeto de Plano Diretor que o prefeito quer aprovar de uma hora para outra sem que o povo sequer o conheça direito.

Primeiro vamos falar do grafiti, pois ele faz parte do espaço urbano da nossa capital, conceito varrido do mapa pelos especuladores que dominam o poder político local distribuindo sacos de moedas a vereadores nativos corruptos que fazem do mandato meio de vida.

A questão é: um prédio antigo deve ser mantido exatamente na sua pintura original ou é possível alterá-la sem comprometer a construção e o que ela significa como registro histórico? Considero um absurdo apagar uma obra de arte. É um crime contra a humanidade. É ridícula a determinação de um órgão público (o IPUF) que obriga a pintar com uma cor morta e sem arte um prédio como o Armazém Vieira, depois que sobre ele foi construída uma obra de arte. Nada será mais belo que o maravilhoso grafiti que lá está. Ele é patrimônio artístico-cultural da comunidade humana. Seria quase como limpar a tela de um Dali só porque alguém acha que o entalhe da sua moldura é mais importante que a tela. Dirão arquitetos que o desenho da fachada, com suas portas e janelas talhadas em madeira ao estilo da época, assim como os detalhes do reboco e as proporções da construção somente se expressam como elemento estético do seu tempo, quando realçados por uma pintura neutra que valoriza cada detalhe. Têm certa razão, mas não toda. No caso, temos uma espécie de simbiose entre duas obras de arte: a arquitetônica – espacial, tridimensional, concreta e estética – e a pintura, ao mesmo tempo concreta e abstrata, emocionalmente mais intervencionista e também de altíssimo valor estético, que atua sobre a primeira.

A arte da segunda metade do século XX (pelo menos o que há de novo nesse período) é marcada pelas grandes ocupações dos espaços públicos, confundindo-se muitas vezes com a arquitetura. Talvez Niemeyer seja a maior expressão desta ideia. É exatamente ao sair dos museus, comumente frequentados por uma pequena parcela da população e tomando as ruas sem pedágio ou ingresso pago, que a arte revela sua veia revolucionária ao tornar-se acessível a todos. O velho Marx já alertava que “a propriedade privada nos fez tão idiotas e passivos que um objeto só se torna nosso se o possuímos, ou seja, se ele existe para nós enquanto capital ou se é usado por nós”. A arte das ruas quebra esta lógica assim como os prédios do nosso grande arquiteto vermelho e assim como o grafiti do Armazém Vieira.

A intensidade do impacto sensorial sobre as pessoas causada pelo prédio do Armazém com e sem o grafiti é incomparável. Pintado com as cores originais é um prédio antigo bonito que causa impressão sensorial, principalmente quando tudo em volta segue padrão meramente funcional e sem graça. Já o belíssimo grafiti sobreposto ao prédio causa emoções muito mais intensas e de outra natureza sobre a alma humana.

Sem Grafiti

O prédio grafitado foi valorizado pelo registro histórico autêntico da cultura de hoje que absorveu o antigo e conectou-o ao presente revitalizando-o. O Armazém Vieira está intacto na sua construção preservando o valor arquitetônico e agregando mais. O exterior foi embelezado pela intervenção artística contemporânea e juntamente com o interior intacto, conserva toda a sua História. A pintura conecta o prédio com uma geração que nasceu expoliada, excluída, mas encontrou formas de resistência criativa no grafiti e no hip hop. Eles não tiveram tempo nem espaço para se preocupar com a diferença entre um prédio antigo ou uma casa velha. Apesar disso conseguem sentir o que significa mudar as coisas quando pintam e deixam a marca de sua classe sobre uma “propriedade” que não podem ter. Uma obra de arte na rua, pode ser apropriada por todos, ao contrário de uma propriedade imobiliária na maior parte das vezes inacessível. Apropriando-se subjetivamente da obra de arte pintada na superfície, o prédio histórico que está embaixo passa a ser respeitado e apropriado também na suas dimensões estética, cultural e revolucionária.

Agora vamos do luxo ao lixo. Não se trata aqui da falácia de atacar o autor para desmerecer a obra, mas de entendermos o mundo em volta para agirmos com mais consequência nas tentativas de transformá-lo. O IPUF, órgão de pseudo controle da ocupação do espaço urbano, personagem deste episódio, é uma fachada a serviço da especulação imobiliária. Ao longo do tempo seu papel tem sido autorizar a destruição de quase todos os prédios históricos da cidade incluindo o quase extinto centro antigo.

Querem cometer qualquer crime contra o patrimônio público em nome do dinheiro? Basta financiar a campanha de alguns vereadores ou deputados que acabam nomeados para o IPUF e resolvem o problema. Casarões belíssimos dão lugar a edifícios de vidro iguais a todos os outros edifícios de vidro. Nem a arquitetura da primeira metade do século XX foi preservada. Crimes bárbaros contra os espaços públicos e a História de Santa Catarina são perpetrados desde sempre por uma burguesia ridícula, provinciana e colonizada que se comporta como uma corte vitoriana, diante da passividade de um povo que se contenta com migalhas, sem noção do que lhe pode ser de direito se lutar por isso.

O caso do Armazém Vieira pode servir de estopim para fazermos a discussão sobre este estupro que o prefeito está cometendo ao empurrar um Plano Diretor sem discussão séria e a toque de caixa.

Qual a pressa? Seus financiadores de campanha estão ansiosos para construir nas dunas? Para derrubar prédios históricos? Para ocupar espaços públicos? Qual a dificuldade de fazer uma discussão séria por seis meses que seja? Um texto legal é cheio de armadilhas que a maioria das pessoas não entende e mesmo os especialistas precisam estudar detalhadamente comparando suas disposições com o mundo real sobre o qual vai gerar efeitos. O prefeito, que é esperto, faz reuniões em que só ouve cidadãos isolados reclamarem do buraco em frente a casa e se faz de surdo quando alguém tenta discutir organização do espaço público sob o prisma dos interesses coletivos das pessoas que vivem nele e não das construtoras que o enxergam como objeto de lucro.

A arte de rua, como o grafiti, não deveria também ser objeto de um Plano diretor sério? Chega de assistirmos passivos às tentativas de estabelecer limites para a arte e para a preservação do meio ambiente enquanto se tenta justificar a destruição da cidade em nome do “desenvolvimento”, como se destruir fosse a única forma de desenvolver.

A arte é intervenção política e é através dela que talvez possamos redimir a humanidade de um destino medíocre. À luta! Pela preservação do grafiti no Armazém Vieira! Pela suspensão da tramitação do Plano Diretor de Florianópolis! Pela defesa e ampliação dos espaços públicos!

O que precisa de limites é a especulação imobiliária, não a arte.  

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On the Rocks (and Roll)

8 11 2013

WhiskyFaz muito tempo que não sento num bar com bloquinho e caneta. Demasiado tempo. Os efeitos da abstinência textual são evidentes.  O papel escapa da tinta, se esquiva. Alguma coisa em meu cérebro desconecta. O processador de palavras trava, mas alguma coisa se salva.  A incrível beleza das pedras de gelo imersas no líquido dourado sobre a mesa operam um milagre e desato a escrever. Para alguns, gelo no whisky é uma heresia tão grave quanto colocá-lo no vinho. Fodam-se. Vinícius, Tom e os outros bossanovas bebiam assim e a turma do Pasquim também. Todos bebiam muito whisky com gelo.  Se a combinação produz poesia, música e Pasquim, bebamos todos whisky com gelo. Além do mais um copo de whisky com gelo é infinitamente mais bonito que um martelinho puro. Saúde!

No meio de uma seleção com Beatles, Stones e Eric Clapton, toca agora Hey Jude e ouvindo-a sempre lembro de minha filha com seis anos de idade num dos meus fins de semana de pai separado, assistindo Paul Mc Cartney na Pedreira Paulo Leminski em Curitiba. Chovia sobre as 50 mil pessoas que cantavam juntas as canções dos Beatles e permaneciam indiferentes quando ele cantava as suas. Até hoje é assim. A maioria das pessoas, como eu, nos protegíamos da chuva com sacos de lixo grandes pois os estoques de capas de qualquer natureza esgotaram-se em todos os supermercados. Mas Bibiana usava uma capinha de plástico como aquelas que se compra em qualquer esquina de Amsterdam, que consegui comprar em algum lugar. Ela experimentava seu primeiro mega-show, montada em minha garupa e cantarolava o lá, lá, lá, lá de Hey Jude fazendo coro com a multidão naquele lugar mágico. Experiências assim fazem parte de uma boa educação. Não sei até que ponto as coisas que proporcionamos aos filhos são determinantes do que eles serão. Eu fui criado para ser um sujeito normal, e fazer tudo igual, mas consegui sozinho alterar meu destino aprendendo a ser meio louco, na loucura real. Sempre contestei essa normalidade hipócrita e injusta que nos tentam impor meia dúzia de poderosos. Nesta condição, sempre desejei que minha filha fosse simplesmente uma pessoa livre e sou um pai feliz pois ela conseguiu. Mais ou menos nessa época, depois da separação, quando minha convivência com ela passou a ser mais intensa e integral nos nossos fins de semana e férias, em algum momento qualquer eu observava extasiado as coisas que ela fazia e pensava e comentei: veja que coisa incrível filha, tu és um pedacinho meu e um pedacinho da tua mãe! Devo ter chorado de emoção quando ela respondeu prontamente: e um pedacinho meu, né pai. Aquela frase simples, espontânea e profunda, foi a demonstração de uma incontestável consciência de independência e liberdade em estado puro que o tempo mostrou irreversível. Ou não, tanto faz. O importante é que ela seja o que bem entender. Essa é a ideia. A árvore e o livro são meros coadjuvantes.








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