A hora de enfrentar o velho modelo

20 06 2013

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Um amigo, preocupado, me disse que este movimento é uma salada ideológica sem foco e pode levar para qualquer lugar. Respondi que vivemos uma salada ideológica faz tempo. Privatizações, leilões de petróleo, parcerias público-privadas em que o dinheiro é público e o lucro privado não são práticas que se possa chamar de esquerda. Nem “mais ou menos”. É neoliberal mesmo. Um modelo de desenvolvimento, com políticas neoliberais só pode resultar no que resultam todas as políticas neoliberais: alguns muito ricos e muitos muito pobres num Estado falido. Essa salada só poderia gerar outra salada como a que saboreamos agora. Os esforços do Estado brasileiro estão hoje voltados para promover negócios acreditando que muitos negócios giram a economia e desenvolvem o país. Mas que tipo de país? PIBão mal distribuído não é medida séria. O povo que está indo às ruas é aquele que, quando adoece, procura o SUS e encontra o inferno, o sofrimento, a doença e a morte. Experimentem estar com suspeita de câncer e ter que esperar um ano para fazer um exame, depois mais um ano para começar a tratar, quando o tumor dobra de tamanho a cada dois meses. Quem está indo para a rua são pessoas que frequentam escolas públicas sucateadas e, com sorte, entram na faculdade sem os conhecimentos básicos para seguir adiante. São jovens que chegam ao mercado de trabalho e só encontram subempregos na forma de estágios, operadores de telemarketing, ou trabalhos temporários, no mais das vezes sem carteira assinada.

Depois de dez anos de governos que foram eleitos para ser o antídoto às políticas neoliberais dos dez anos anteriores, claro que houve avanços. Claro que coisas melhoraram. Claro que podia estar muito pior. Poderíamos ter entrado na ALCA como queriam os tucanos. Lula enterrou a ALCA. Poderíamos estar pendurados na economia estadunidense como os tucanos nos deixaram. Lula mudou o rumo das nossas relações internacionais e a crise estadunidense passou ao largo. Tivéssemos mantido a política tucana teríamos falido duas vezes. Em vez disso  deixamos de ser capachos do G8, criou-se o G20, Lula alinhou o Brasil com os emergentes no BRICS. Hoje a América Latina chama atenção do mundo com transformações políticas e sociais graças à unidade regional construída por uma política de integração baseada na solidariedade e não no imperialismo, para a qual o papel do Brasil foi fundamental. Fossem os tucanos talvez já tivéssemos declarado guerra à Bolívia a mando dos EUA, teríamos isolado a Venezuela e voltado as costas à Argentina e ao Uruguai. A mídia, principal partido da direita, bem que se esforça nesse sentido. Mas se tudo isso mudou a geopolítica da nossa região, no plano interno o projeto econômico é um modelo neoliberal com temperos sociais. O que melhorou para o povo que está nas ruas, é muito menos do que melhorou para grandes empresários nacionais e corporações estrangeiras que atuam no país, em especial no agronegócio.

Não se pode negar a existência de corrupção, mas é calhordice afirmar que ela existe por causa do PT que exerce a presidência. Entretanto, o modelo de Estado corrupto que sempre existiu não tem sido atacado nem enfrentado com a necessária energia. Ao contrário, é tolerado em nome de alianças para a “governabilidade”. Não existe mais corrupção do que sempre existiu, e, embora também tenha os seus casos, o PT não é um partido que se caracterize pela corrupção como são a maioria dos demais da base aliada e da oposição.

É contra esse modelo de Estado e de política que o povo está na rua, ainda que aparentemente não tenha uma formulação logicamente elaborada a respeito. É um inimigo quase invisível, pois está impregnado na sociedade como um parasita e como tal precisa ser atacado. Este modelo está impregnado não só nas obras da Copa, mas em todas as demais obras públicas, está impregnado no Bolsa família depois que o programa passou a ser controlado pelas prefeituras e não mais pelos comitês populares. Está impregnado no sistema de saúde pública que gasta muito mais com burocracia e negócios do que com saúde. A corrupção lá embaixo, nas prefeituras e nos estados não é do PT porque é mínimo o número de prefeituras e estados dirigidos por petistas comparado com os partidos tradicionais.

Entretanto, o futuro não está perdido. Diz um ditado da minha terra que quando um cavalo passa encilhado a gente monta. A grande crítica da esquerda aos governos petistas é que em vez de buscar no apoio organizado e politizado dos movimentos sociais as condições de legitimidade para governar com mudanças, se afastou deles e se aproximou dos partidos tradicionais que não querem mudanças. Depois da primeira eleição de Lula, o governo passou a evitar mobilizações sob alegação de que poderiam sair de controle e apostou na desmobilização.

O povo não acordou ontem. A última das massivas mobilizações populares foi a grande marcha dos 100 mil a Brasília encabeçada pelo MST (não pelo CANSEI) com a participação de todos os sindicatos, centrais, entidades estudantis, organizações populares e movimento comunitário. Foi numa marcha contra o modelo neoliberal de FHC, do PSDB e do PFL que virou DEM que virou PSD. Aquele movimento resultou na eleição de Lula para mudar e sepultar o modelo neoliberal de muito lucro para poucos e cada vez menos direitos para muitos.

Mas em vez de continuar assentando sua legitimidade nos movimentos sociais que o elegeram, no plano interno o governo passou a atacá-los começando pela a Reforma da Previdência quando eliminou direitos dos servidores públicos para atender as reivindicações do mercado financeiro. A medida era tão neoliberal que PSDB e PFL votaram junto com o governo, afinal era seu programa.

A maioria das entidades sindicais combativas que atuavam no campo da CUT, sofreu um sucateamento ideológico e deixaram de defender os interesses de classe que deveriam representar. A legitimação do governo passou a ser garantida através de acordos com setores conservadores que se opõem a mudanças. A CUT pagou o preço, mas os trabalhadores  também. Todo o dia subsídios são distribuídos aos bilhões na forma de desonerações fiscais, financiamentos do BNDES ou dos bancos públicos a empresários que ficam mais ricos. Os serviços públicos são vistos como um negócio a ser explorado por empresários privados. Projetos só são aprovados se vão gerar lucros escorchantes para alguém. Quando se fala em tarifa Zero para transporte coletivo ninguém do governo pensa em estatização das empresas, mas em subsídios para o lucro delas permanecer intacto. Subsídio passou a ser sinônimo de garantia de lucro para empresários e apenas secundariamente de promoção de direitos sociais.

É contra os efeitos práticos visíveis desse tipo de política invisível a olho nu que as pessoas estão nas ruas. Daí a confusão, daí a salada, daí a direita estar tentando se apossar de um movimento legítimo. Aqueles que chegaram ao poder com uma proposta de esquerda, mas adotaram um modelo de governança de direita estão agora encurralados entre este modelo e os efeitos dele sobre a sociedade que reclama já tardiamente.

O ponto de desequilíbrio do sistema não chega com hora marcada. Eu estava em Brasília no domingo em que, de uma hora para outra, as pessoas sairam expontaneamente à rua vestindo preto e pedindo o impeachment de Collor que tinha pedido verde e amarelo em sua defesa. Nenhum sindicato convocou, nenhum movimento organizado marcou data. Quando se viu aquela massa na rua tomando a cidade os carros de som de sindicatos começaram a aparecer, meio no susto, para puxar a imensa carreata. O que aconteceu naquele domingo foi desproporcional em relação às mobilizações organizadas pelo movimento Fora Collor que avançava muito lentamente. De repente explodiu. O mesmo aconteceu em várias outras capitais e poucos meses depois Collor caiu.

Caiu Collor, derrubado por amplas mobilizações populares, mas não caiu o projeto neoliberal.  Assumiu Itamar, o vice, que nomeou FHC Ministro da Fazenda. Ele iniciou as reformas neoliberais, privatizações, ataques a direitos e dali pulou para mais 8 anos de presidência durante os quais foi responsável pelo maior saque ao patrimônio público já realizado na História do Brasil. Tudo registrado em detalhes em “A Privataria Tucana”.

Então veio Lula para nos redimir! Fez uma política externa irretocável, mas colocou o tucano Meirelles no Banco Central e deu-lhe autonomia de fato, reformou a previdência atacando direitos dos servidores, continuou as privatizações com outro nome. Colocou o conservador Palocci para dirigir a economia no melhor estilo neoliberal.

Mesmo assim, foi atacado o tempo todo pela mídia que tentou derrubá-lo sempre que pode, mas só começou a debater um marco regulatório no último ano de governo na Conferência Nacional da Comunicação. As propostas, no entanto continuam engavetadas e a mídia raivosa conspirando o tempo todo sem submeter-se sequer aos limites estabelecidos pela Constituição como a proibição de oligopólios e a complementariedade dos sistemas estatal, público e comercial abrindo espaço para o contraponto.

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Não foi a direita quem começou as mobilizações, mas é ela, com auxílio luxuoso da sua mídia, quem já tenta se aproveitar da situação. Imagens assustadoras de violência, incêndios, vandalismo, perda de controle, são elementos de propaganda para dizer que é hora de mudar (para as mudanças deles). Nada mais previsível e lógico. É óbvio também que os EUA estão apostando na desestabilização de um governo que acabou com a ALCA e ajudou a construir a unidade da América Latina. Estão loucos para recuperar o seu quintal e os seus negócios.

Tudo isso é verdadeiro, mas também é verdade que as mobilizações que tomaram o país formam o cenário perfeito para o governo assumir o rumo para o qual foi eleito há dez anos, retomar a aliança com os movimentos sociais e com apoio deles e das mobilizações que já assustam todos os políticos, mandar para o Congresso os projetos de democratização da mídia, de taxação das grandes fortunas, de aplicação do dinheiro público sem intermediários em politícas de transporte público, habitação, saúde e educação. Empresários podem trabalhar para o governo como contratados por obra certa. Essa história de “parceiros” onde o governo entra com o dinheiro e os empresários ficam com o lucro desvia a maior parte dos recursos de seus verdadeiros fins, para o bolso dos “parceiros”. É difícil fazer isso com acordos de gabinetes, mas com povo na rua é outra coisa. O governo tem que decidir se insiste no modelo conservador neoliberal de gestão do Estado, ou se avança com o apoio dos movimentos sociais. Ainda dá tempo, mas, para isso, terá que escolher entre permanecer com alguns de seus atuais aliados ou se aliar definitivamente com o povo. Chavez, Evo, Correa, Mujica e Cristina escolheram o povo. E agora Dilma? Que dilema! As alternativas de uma escolha errada é ser derrotada pela direita por não ter feito um governo de esquerda ou correr mais para a direita para se manter no poder cada vez mais refém dos acordos de gabinete. Ambas seriam uma tragédia. Na Europa, quando os “socialistas”, no poder, se transformaram em neoliberais, perderam a confiança dos cidadãos, entregaram seus países para a direita e deu no que deu.

É preciso coragem e muita firmeza. Há momentos em que é preciso dar um grande passo e apostar nas massas. Todas as grandes mudanças na História foram feitas assim. Passos tímidos não mudam nada e, no mais das vezes levam a tropeços. O povo ai está cobrando este passo.

Se o governo montar neste cavalo encilhado, seguirá fazendo História. Se continuar com medo do galope, ficará a pé e não será perdoado.

(As charges são do grande Latuff) 

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20 06 2013
Cláudia

Caio, você disse TUDO. Não tenho nada a retocar e olha que eu sou chata e de opinião.

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