Cibercultura e revolução: uma provocação aos entusiastas do mundo virtual

21 07 2012

A seguinte questão me foi proposta para debate: “Estamos na era da cibercultura. Como se comporta a sociedade neste mundo multimídia? Poderíamos dizer que mudamos de uma sociedade de massas para uma nova ordem de informação segmentada?”

Não podemos refletir sobre as implicações da chamada cibercultura sem uma contextualização histórica já que a espécie humana caracteriza-se pela capacidade de gerar processos históricos no espaço social por ela ocupado.

Parece haver um consenso de que a forma de organização da sociedade humana no presente é inadequada e possivelmente incapaz de viabilizar a continuidade da espécie em razão das transformações processadas sobre o meio ambiente pela ação de grupos econômicos. Pode-se dizer que esta idéia é a base da crítica posta hoje ao status quo dominante pela parcela da sociedade dotada de alguma forma de pensamento crítico e alinhada com uma perspectiva de mudança no rumo desse processo evolutivo. Ressalte-se que tal premissa não é revolucionária pois pressupõe que se os proprietários desses grupos econômicos fossem repentinamente tomados de consciência e desistissem de parte de seus lucros, o problema estaria resolvido. A tese não inclui a extinção do sistema capitalista e sua substituição por alguma coisa diferente, como solução para a preservação e evolução sadia do Homem a partir de seu estado atual.

O que a internet e a cibercultura, tidas por alguns como verdadeira revolução comportamental e tecnológica tem a ver com a constituição deste estado de coisas? Pouco.

Em 1968, data histórica das últimas grandes revoltas mundiais no século XX, a juventude e a classe trabalhadora tomaram as ruas em grandiosos protestos contra a guerra, contra a cultura do consumo, contra os regimes de governo. As imensas mobilizações de massa que começaram na Europa e se espalharam pelas Américas e Ásia, colocaram em xeque governos dos mais variados matizes. Enquanto o capitalismo era questionado em Paris, o socialismo vigente era atacado em Praga. Grandes greves em todos os setores, unindo estudantes e operários encontraram uma classe política perplexa e incapaz de responder de imediato às críticas ou às reivindicações que poderiam ser sintetizadas em uma expressão: liberdade de ser. Era a contra-cultura constituída da negação da cultura até então existente. Em poucos meses, no entanto, o movimento perdeu força porque não apresentou uma alternativa de poder deixando à classe política tradicional a responsabilidade de apontar um caminho dentro das instituições oficiais do “Estado Democrático de Direito”, que nada tinha de novo ou revolucionário em 68, tampouco o tem nos dias de hoje. O capitalismo se reorganizou e logo voltou a reinar absoluto e fortalecido a ponto de atualizar-se na forma do neoliberalismo, lançado por Reagan e Tatcher por volta de 1980, transformando-se mais uma vez no tormento de trabalhadores e estudantes.

O que a internet e a cibercultura tem a ver com isso? Muito. Assim como o movimento iniciado nas ruas de Paris em 1968 se espalhou rapidamente pelo mundo sem internet, tendo seu apogeu e desaparecendo em seguida, os “movimentos” aparentemente nascidos dentro da internet, também tem existência efêmera em razão de sua superficialidade. A face política destes últimos simbolicamente representada pelas recentes revoltas no mundo árabe, não mostraram força suficiente para mudar a História ou apontar rumo distinto à evolução da espécie. Explodem num momento para logo em seguida dispersar-se sem grandes consequências, como demonstra o caso exemplar do Egito. O Poder não está na internet.

Mesmo com todas as potencialidades exaustivamente citadas por todos, a cibercultura se assemelha à contra-cultura do final dos anos 60. Aparenta grande potencial para proceder mudanças, mas não consegue efetivá-las.

Como se comporta a sociedade neste mundo multimídia? A interatividade apontada como principal fator inovador é utilizada na maior parte do tempo para divulgação e difusão de informações inúteis, fúteis e alienadas, como se pode ver observando o conteúdo circulante nas redes sociais. Comunicações de fatos pessoais e corriqueiros do tipo “acordei e estou tomando café”, “minha filha disse papá” e outras tolices de interesse exclusivo dos que as redigem e talvez de suas famílias, ocupam grande parte do espaço das redes sociais. Outra parte é ocupada pela reprodução automática via compartilhamentos, de bobagens com fundo religioso ou de autoajuda. A quantidade de comunicações inteligentes circulantes pelo meio se assemelha proporcionalmente aos panfletos que convocavam passeatas em 68. Pessoas que procuravam nos livros ideias capazes de fomentar o desenvolvimento dialético do pensamento continuam a fazê-lo, agora com auxílio da internet, mas o conteúdo de suas ações e buscas é o mesmo de antes e continuam sendo minoria envolvida, como antes, mais numa luta de resistência do que numa ofensiva transformadora.

Desde o Ford modelo T, criado no início do século XX, um automóvel é formado por quatro rodas, um motor, uma caixa de velocidades, um sistema de direção e freios. Cada um desses dispositivos evoluiu, mas o modelo básico segue o mesmo. Do seu lado, a internet não contribui mais no combate à alienação política que impede o desenvolvimento de uma nova cultura, do que um carro de som na esquina chamando para a revolução diante da multidão que segue seu caminho. Embora com tanto potencial transformador quanto as ideias e os megafones de 68, é um exagero afirmar que a internet criou uma nova cultura. Uma cultura tem como pressupostos forma e conteúdo. Embora a era cibernética tenha trazido uma nova forma de comunicação, pelo menos até o presente pouco ou nada acrescentou em conteúdo. É como a injeção eletrônica dos motores atuais em relação ao velho carburador. Melhorou a eficiência, mas continuamos queimando o petróleo.

Poderíamos dizer que mudamos de uma sociedade de massas para uma nova ordem de informação segmentada? De certa forma. O conceito de massa nos leva a uma multidão agindo da mesma forma por mera repetição, como uma boiada seguindo sem pensar o boi que vai na frente.

O comportamento de massa é alienado no sentido de que o indivíduo deixa de agir pela própria consciência e reflexão, para agir segundo orientação externa a si. Assim, aliena a terceiro a capacidade de tomar decisões.

A primeira questão é: mudamos de uma sociedade de massas para uma nova forma? Ainda que as ações de massa não sejam cotidianas nem exclusivas de outras ações individuais, a introdução da informática em nossa cultura não mudou as causas que levam um indivíduo a massificar-se. Entendamos massificar-se como juntar-se a outros que seguem uma orientação (comprar um produto, ir a determinado lugar, repetir um mesmo discurso, etc.) externa a si e também seguida pela maioria. Neste sentido, não mudamos ainda de uma sociedade de massas.

A segunda questão é: existe uma nova ordem de informação segmentada? Sim, existe. Sem sombra de dúvida, a velocidade do processamento digital de informações coloca a posssibilidade de acesso instantâneo a uma quantidade absurdamente grande de informações. É oportuno registrar que a quantidade de indivíduos da espécie no planeta também cresceu substancialmente e a evolução tecnológica em boa parte apenas dá resposta à quantidade de indivíduos com necessidade de se comunicar. Entretanto, a dificuldade natural de lidar com tamanha velocidade de circulação de informações causa incerteza e ansiedade. Willian Gudykunst, professor de Comunicação estadunidense afirmou corretamente que, “se a incerteza e a ansiedade estiverem acima dos limites máximos, como muitas vezes estão quando interagem com membros de outros grupos, os indivíduos estão excessivamente ansiosos e incertos para se comunicarem eficazmente.” O resultado disso é a construção de um tipo de conhecimento superficial a partir de segmentos aleatórios de informação que o indivíduo consegue captar ao tentar ansiosamente pegar, ao mesmo tempo, tudo o que a internet lhe disponibiliza. É um pouco como o personagem de um filme que operava fotocopiadoras e tentava ler o conteúdo das páginas mas apenas conseguia ler as primeiras linhas de cada página, antes de trocá-la. Assim, certamente construia um certo tipo de conhecimento, mas sempre parcial e segmentado.

Quando todos passam a agir da mesma forma, estamos diante de uma ação de massa incluindo-se ai o comportamento atual da maioria dos indivíduos diante do computador. Os resultados das ações de massa no caso da internet, tendo por base informações aleatórias, podem levar milhões à Praça Tahrir no Cairo e derrubar um ditador corrupto, mas também podem ser incapazes de apontar no momento seguinte uma alternativa para colocar em seu lugar, reproduzindo de certa forma o resultado prático das “explosões” sociais de 1968, quando não existia internet.

Roland Posner, semiólogo tcheco-alemão, ensina que “nossa cultura mantém as experiências de nossos ancestrais disponíveis para cada novo membro da sociedade, de modo que ele ou ela possa repetir e aperfeiçoar as experiências positivas, sem precisar passar novamente pelas experiências negativas. Portanto, a cultura faz pela sociedade o que a memória faz pelo indivíduo. Ela é um mecanismo coletivo de armazenamento de informação”.

A incapacidade de construção de conhecimento (cultura) consistente e transformador a partir das informações segmentadas e aleatórias acaba contribuindo para a manutenção do estado de alienação política e, consequentemente, conspira contra mudanças reais no campo da política e da economia que a determina em última instância.

Podemos encerar esta reflexão concluindo que existe uma nova ordem de informação segmentada, mas ao contrário de mudar o comportamento de massa para uma forma mais avançada, até o presente, ela tem contribuido apenas para a sua manutenção.

(Caio Teixeira)

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Indicação do Conselho de Comunicação Social é retrógrada e antidemocrática

19 07 2012
O Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) recebeu com surpresa a notícia da reativação do Conselho de Comunicação Social (CCS), e vem a público manifestar seu repúdio e indignação quanto à nomeação antidemocrática e preconceituosa realizada pelo Congresso Nacional.
A inclusão do Conselho de Comunicação na Constituição Federal de 1988 foi fruto tanto da luta política e da mobilização de diversos segmentos sociais quanto da articulação da sociedade com o Parlamento, fato que não se repetiu agora quando da composição do Conselho. Não houve diálogo sequer com a Frente Parlamentar pela Liberdade de Expressão e Direito à Comunicação, subscrita por mais de 180 parlamentares, com forte representação da sociedade civil, que no ano passado encaminhou sugestões para a composição.
O CCS foi regulamentado em 1991, mas só teve sua primeira indicação em 2002, e estava parado desde 2006, numa interrupção ilegal e inconstitucional. Embora tenha caráter consultivo, ele pode cumprir papel importante de fomentar debates sobre os temas da comunicação social, e servir como impulso para o Congresso regulamentar os artigos constitucionais sobre comunicação que estão há 24 anos sem definição legal – como o que proíbe monopólios e oligopólios e o que aponta para a complementaridade dos sistemas público, privado e estatal.
Contudo, as indicações realizadas na reativação do CCS foram completamente arbitrárias, sem diálogo com a sociedade civil organizada com atuação no campo, que foi atropelada justamente no momento em que busca contribuir com o avanço da democratização da comunicação e com a efetiva liberdade de expressão para todos e todas. A demonstração do nosso acúmulo e compromisso se dá cotidianamente para quem acompanha a pauta, e foi mais do que comprovada durante a I Conferência Nacional da Comunicação (Confecom), realizada em 2009 e praticamente ignorada pelo Congresso Nacional, com honrosas exceções.
Nas vagas fixas reservadas a trabalhadores, foram mantidos representantes de entidades do movimento, como a Fenaj, mas a indicação dos radialistas se deu sem diálogo com a atual gestão da Fitert e a dos artistas privilegiou um único sindicato, com forte ligação com o setor patronal, em detrimento da associação nacional.
Já nas indicações das cadeiras da sociedade civil foram privilegiados setores conservadores (inclusive empresários do setor) e ligados às igrejas, com claro favorecimento a cidadãos com relações pessoais com o presidente do Congresso Nacional. A exceção positiva foi a indicação de pessoas com ligação com a pauta da cultura digital, que ainda assim não contempla as perspectivas do movimento pela democratização da comunicação.
Além destas incoerências, é grave a constatação de que todos os 13 nomes indicados para a titularidade da representação são de homens, desprezando a diversidade e a pluralidade da sociedade ao alijar completamente a participação feminina, algo inadmissível para a construção de uma sociedade democrática.
Um Conselho que deveria servir para auxiliar o Parlamento, e que reúne entre suas funções avaliar questões ligadas à liberdade de manifestação do pensamento, da criação, da expressão e da informação, além de emitir pareceres e recomendações ligadas à produção e programação de emissoras de rádio e televisão, não deve – e não pode jamais – prescindir da participação de uma representação coerente da sociedade civil à altura de tão complexas e estratégicas responsabilidades.
Conclamamos os nobres parlamentares a desfazerem esse grave erro e reabrirem o diálogo. Este tipo de prática arbitrária afronta os direitos do povo brasileiro e afeta o caráter democrático do Conselho.

FNDC – Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação








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