Que volte a velha subversão

7 06 2012

Caio Teixeira, jornalista

De repente o mundo virou uma grande nostalgia. Raul Seixas, Roger Waters, Bob Dylan e Paul Mc Cartney, Stones cada vez mais vivos, velhos Mutantes,  eternos parceiros do futuro na reluzente galaxia.

Nos anos 60/70 tivemos a mais importante revolução comportamental do século. Muito mais que revolução sexual, a grande mudança era a formada de paz, amor, sexo, drogas e rock’n roll, que poderiam ser sintetizados numa palavra, meio esquecida nos dias de hoje: liberdade. Para ser mutante bastava um pouco de coragem e muitos a tinham. Quem quiser saber mais assista o imperdível documentário “Raul, o início, o fim e o meio”.

A receita era altamente subversiva à ordem dominante de ontem e de hoje. Pior do que o socialismo bem explicado de Marx, os hippies e outras tribos pregavam a liberdade de ser e esta liberdade atacava o dogma mais sagrado do sistema: o consumo. Após um período de desorientação veio a reação implacável do sistema. Nos anos 80 a mídia/mercado jogou pesado para se apoderar da música, transformar cultura em moda e dirigi-la ao encontro de seus interesses travestida em objeto de consumo. Uma geração Yuppie (não confundir com o arremedo de rede social) de jovens caretas cheirando pó e trabalhando sem parar foi a resposta. O culto ao dinheiro. Mas o capitalismo não nasceu para tótem e ainda não inventaram mídia capaz de transformar cuspe em mel. O resultado, na constatação de seus próprios autores foi uma década perdida não apenas na economia mundial neoliberal mas em tudo o mais. A produção de objetos de consumo culturais era formada por dezenas de “neo” teorias e “new” gêneros de música com os quais tentaram vulgarizar o velho, bom e revolucionário rock. Nada funcionou. Nada convenceu. Tudo laboratório, tudo igual, tudo igual a nada. Um grande Nada. Um buraco negro na história, na arte, na cultura, no tempo. Descontinuaram o caminho da revolta, mas algumas pedras continuaram rolando morro acima, alguns engenheiros seguiram enfrentando a onda onde muita gente naufragou. O ímpeto criador não pode ser falsificado. De tudo resultou uma grande neurose coletiva de querer ser o que não se é. Querer ser rico, bonito, atleta, corredor de formula 1, esquiador, paraquedista, piloto de motocross, de avião, de jet ski. Piloto de cartão de crédito. Ninguém pode ser o que não é, então a depressão virou moda. E teve o neoliberalismo também.

E agora o que acontece? Sem saber para onde dar o primeiro passo, por exclusão, vamos chegando à necessidade da subversão total.

A subversão começa de cima. A política é subvertida, é pervertida. Democracia é um conceito subvertido. O sistema de representação é subvertido, corrompido. A corrupção está em todos os lados. O governo ameaça com devassa fiscal, e a sonegação continua. Quem é o dono do voto? É o eleitor que marca o xis ou quem financiou a campanha, quem contratou o marqueteiro que induziu o eleitor? As CPIs não mandam ninguém para a cadeia: os investigados viram ministros ou senadores. É a subversão da ética, da moral, dos princípios. Máscaras caem mas a mídia as recoloca no lugar. A televisão, extensão do olho, mostra uma coisa enquanto o próprio olho enxerga outra. As pessoas não conseguem distinguir o que vêem do que pensam estar vendo, mas apesar da dificuldade ótica algumas mentes ainda conseguem vislumbrar que alguma coisa está fora da ordem. Sempre alguns primeiro. Então resta fechar os olhos e pular. Um ato de ousadia. O resgate da ousadia que ficou suspensa durante os tempos de buraco negro. A ousadia de continuar a partir do lugar onde paramos, a ousadia de procurar esse lugar do futuro olhando para trás. A ousadia poderia ter sido a marca dos anos 90 se tivéssemos subvertido todas as ordens. A ousadia de subverter a subversão oficial arrancando de uma vez todas as máscaras, de subverter a cultura oficial pela cultura real criada com tesão.

A subversão passa pela reconquista da capacidade de criar de cada um. Todo humano é um artista. A arte antecede a razão. Arte é ousadia. Uma câmera na mão e uma idéia na cabeça. Viva Glauber! Um alfabeto, lápis e papel. A Câmera e o lápis são as armas da idéia libertada.

Dizem que quem só anda por caminhos conhecidos, só chegará onde os outros já chegaram. Pode-se dizer também que quem só anda dentro da ordem estabelecida, só vai chegar onde ela quiser nos levar. Mudar é subverter. A única chance de surgir o novo é sobre as ruínas do hoje, então é hora de começar a quebrar tudo o que está errado. Do contrário, tudo ficará como está: errado. Então? Está esperando o que?


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3 responses

7 06 2012
luca

a medida que envelhecemos perdemos o visco…da pele… e ganhamos uma lucidez que, embora efêmera, fruto da maldita degeneração, é filha da experiência que devemos passar adiante…parabéns ao autor…continue assim..isso faz um bem danado!

7 06 2012
Luiz França

A geração que antes sonhava, agora é a que faz a realidade, quer com produtos culturais, materiais ou com presença efetiva na sociedade. É a massa que viveu o pós-guerra, um mundo em libertação do conflito armado, mas que teve que enfrentar a Guerra Fria e suas consequências separatistas. Temos um mundo mais plural, mais participativo, mas não menos desafiante!
O coração das pessoas ainda espera amor, paz e ternura e sempre desejam satisfação de necessidades que, independentemente da geração, são humanas. A dignidade será sempre um caminho a buscar, diante das diferenças, do respeito mútuo e da vontade de fazer um mundo mais livre, mas de pessoas comprometidas com o bem-estar, com o bem-viver…
Gosto muito da geração que me antecedeu, mas temos que pensar em ajustar os caminhos da geração que agora chega. Ouví-la, principalmente, amá-la, essencialmente, e fazer o melhor, para que sofram menos.

8 06 2012
Angela

Li o texto (ótimo) e a boa crítica. Daí me veio uma Alucinação: amar e mudar as coisas me interessa mais!!!!! Amar e mudar, amar e mudar, amar e mudar…

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