Internet, verdades e mentiras. Como saber em quem confiar?

16 05 2012

É possível confiar nas informações que circulam pela internet? Para responder o que parece óbvio, vamos recorrer ao jurista e psicanalista Agostinho Ramalho Marques Neto (2009) quando alerta para o fato de que o êxito do consumismo pressupõe a descartabilidade e uma lógica individualista nas relações entre as pessoas. Segundo ele, “para a lógica neoliberal, tudo é mercadoria. Isso inclui as pessoas. Cada vez mais, estas se relacionam umas com as outras como se fossem objetos de consumo – descartáveis, como qualquer objeto produzido pela nova economia.”
A lógica da descartabilidade passou a valer para as informações acessadas pelas pessoas não mais como fonte de construção de conhecimento, mas como meros objetos de consumo, portanto descartáveis como qualquer outro.
Assim como a cada estação surgem roupas da moda ou novos modelos de telefones, computadores ou automóveis, incentivando as pessoas a consumi-los compulsivamente, a internet e as novas mídias fornecem informações em quantidades absurdas, prontas para consumo, reprodução e descarte.
Ao contrário da televisão cujo conteúdo é cuidadosamente planejado segundo objetivos estratégicos dos proprietários das empresas detentoras das concessões, o território da internet não está sujeito a qualquer tipo de controle de conteúdo. Henry Jenkins em Cultura da Convergência, mostra como a brincadeira do estudante secundarista que colou a imagem de um personagem da Vila Sésamo à de Bin Laden, e postou-a na rede, transformou-se em cartaz utilizado nos protestos anti-estadunidenses no mundo árabe pós 11 de setembro. O estudante estadunidense certamente não tinha a menor idéia de que sua “obra” no photosop acabasse se prestando a tal fim. Segundo Jenkins o jovem pretendia, à sua maneira, apenas atacar o personagem do programa infantil.
Quando uma pessoa lê uma publicação fascista, encontrará nela “verdades” fascistas, quando lê uma publicação de esquerda, encontrará ali, “verdades” marxistas, e assim por diante. Em ambos os casos, entretanto, estará lendo o produto de uma edição industrializada, ainda que não necessariamente impressa. A internet, diferentemente, permite que qualquer um se transforme em editor sem necessidade de possuir uma empresa editorial com razão social e sujeita a regras de mercado.
Bernardo Kucinski em “Jornalismo na Era Virtual” analisa o caso de Jayson Blair, repórter do The New York Times demitido ao descobrir-se que simplesmente inventava suas reportagens. O jornalista estadunidense precisou de imaginação, escreve Kucinski, para inventar entrevistas que nunca foram feitas ou descrever paisagens de lugares em que nunca esteve. A Fraude jornalística, no caso foi um recurso para garantir emprego num espaço de alta competição, conclui o professor.
Encontramos na rede milhões de informações sem qualquer valor científico ou mesmo sem conexão com a realidade, com ou sem aparência de verdade como possuiam as reportagens do New York Times ou como obviamente não possuia a montagem do estudante secundarista com Bin Laden ao lado da imagem de um boneco.
Ao mesmo tempo, também podemos encontrar nesse meio, o citado texto de Agostinho Neto na sua versão original, assim como sites científicos ou jornalísticos da mais alta confiabilidade.
Mas quando se fala em confiabilidade de determinado meio de comunicação ou mídia, estamos falando de que exatamente? O New York Times é considerado um jornal confiável, um jornal referencial da imprensa mundial, no entanto contava mentiras pelas palavras do seu repórter inventor de notícias. Quem confiou se estrepou.
A idéia de confiabilidade deriva de confiança ou seja, a crença que a análise de outro corresponde à verdade sem necessidade de conferir pessoalmente. Confiança, portanto, vem de uma atitude humana individual e pessoal. As pessoas acreditam no que querem acreditar, por exemplo, “que deus é branco e o diabo é chifrudo”, como diz a letra de Marcelo Nova.
A confiabilidade das informações que circulam pela internet, dessa forma, pode ser considerada um conceito social e midiático construído pela repetição. Há quem, de tanto assistir ou ler, acredite no Jornal da Globo ou na Veja. Há quem acredite que um texto rodando na internet foi escrito por Arnaldo Jabor ou por Luiz Fernando Veríssimo embora ambos o neguem veementemente.
Jenkins mostra que no mundo da convergência das mídias, toda história importante é contada, toda marca é vendida e todo consumidor é cortejado por múltiplos suportes de mídia. Ele lembra o trajeto da imagem de Bin Laden ao lado do boneco: “da Vila Sésamo ao photosop, e à rede mundial de computadores, do quarto de Inácio (o estudante) a uma gráfica em Bengladesh, dos pôsters empunhados por manifestantes antiamericanos e capturados pela CNN às salas das pessoas ao redor do mundo. Parte da circulação dependeu de estratégias empresariais como a cobertura da CNN, mas parte dependeu da tática de apropriação popular, seja na América do Norte ou no Oriente Médio.”
Concluo afirmando que a única garantia sobre a veracidade ou autenticidade das informações capturadas por ferramentes de busca na atmosfera virtual é a capacidade crítica de cada pessoa, que se constrói, na maior parte das vezes, pelos meios convencionais das salas de aula, das leituras dos livros, dos bons debates cara a cara e da prática saudável da política, da política que fazem os verdadeiros cidadãos, de baixo para cima, todos os dias e não daquela que se resume a votar de quatro em quatro anos.

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