Dialética: a tecnologia da alienação também produz seu antídoto

9 05 2012

Um artigo que li recentemente chamava atenção para o fato de que uma nova sociologia nasce com as novas tecnologias de informação. No mundo virtual as pessoas se relacionam de forma diversa do que há uma década, quando a comunicação pessoal, cara a cara, os debates em auditório e os livros impressos, por exemplo, nos levavam a reflexões mais profundas sobre os temas. A partir dos efeitos transformadores de comportamento das chamadas redes sociais – o maior fenômeno na minha opinião criado pelas Tecnologias de Informação – a sociedade humana acostumou-se rapidamente a debates superficiais, sem foco definido ou com mil focos ao mesmo tempo, o que dá no mesmo quanto ao resultado negativo de construção de conhecimento crítico e transformador. A pesquisa científica atual demonstra que, ao contrário do que se pensava, os neurônios são capazes de se reorganizar constantemente tanto para suprir alguma deficiência orgânica imprevista quanto para adaptar as funções cerebrais às contingências de comportamentos impostos de fora, como o uso frequente do computador, por exemplo.

Grande parte das novas gerações que descobriram o mundo através das novas TI, com as exceções de sempre, tem imensa dificuldade em ler um livro até o final ou acompanhar o desenvolvimento de uma idéia ou teoria que tenha mais de duas páginas. Tal mudança de comportamento favorece o conservadorismo político e ideológico pois sem a possibilidade de um pensamento crítico baseado em confronto dialético de idéias, continuamos impotentes para mudar o modelo político e econômico.

Mas é preciso dizer que nem tudo está perdido. A ciência não é neutra como muitas vezes tentam nos fazer crer. A internet foi criada como arma de guerra (fria) pelo Pentágono. Posteriormente, foi disponibilizada como instrumento de busca de textos e dados e começou a ser utilizada nas pesquisas universitárias (o Google é uma decorrência direta desta fase), espalhou-se pelo mundo e ficou sem controle sendo apropriada por todos. Num segundo momento, criaram-se ferramentas de interatividade intensa como Orkut (hoje decadente), Twitter, Facebook e Youtube, além de outros parecidos mas que não obtiveram tanto sucesso, muito mais por uma questão de usabilidade do que de filosofia. É a fase que se convencionou chamar Web 2.0, que vivemos hoje.
Apesar das críticas que se pode fazer acerca dos efeitos dessas novas mídias sobre o comportamento das pessoas, é justamente a sua condição de mídia (meio de comunicação) que a Web 2.0 trouxe algo de benéfico.
A partir do surgimento da televisão este meio transformou-se em poucas décadas num poderosíssimo instrumento de manipulação ideológica obviamente a serviço da reprodução da ideologia dominante. A televisão é atualmente um dos mais importantes Aparelhos Ideológicos de Estado, numa sociedade onde o modo de produção capitalista dita o formato do estado e sua ideologia. Vivemos em Estados capitalistas na imensa maioria dos países atuais. Para Louis Althusser (1985), pouco importa se as instituições que constituem os Aparelhos Ideológicos do Estado (AIE) sejam “públicas” ou “privadas”. O que importa, afirma ele, é o seu funcionamento e, neste sentido, instituições privadas podem perfeitamente “funcionar” nessa função.
Então, quando acreditávamos que a circulação em massa da informação estava totalmente controlada pelos sete grupos multinacionais de mídia que, de forma vertical, de cima para baixo, escolhem o que é notícia e o que não é, quem é bandido e quem é mocinho, a internet surge como mídia alternativa, horizontal e sem controle pelo Estado ou pelo tão idolatrado mercado. Esta condição permite a circulação das informações reais, numa dimensão multilateral sem o filtro imposto pelos grandes grupos de mídia que atuam como AIE. Não é por outra razão mais recentemente aparecem propostas como o AI-5 digital do ex-senador Eduardo Azeredo do PSDB e as mais recentes tentativas de regulamentação (controle) pelo Estado da circulação de informação pela internet, como os projetos SOPA e PIPA nos EUA e o protocolo ACTA já aprovado por alguns países europeus e asiáticos e veementemente rechaçados pela comunidade plugada do mundo inteiro.  A alternativa a esta liberdade de mídia é descrita por George Orwell em “1984” e transformou-se no sonho de consumo dos barões da mídia como se pode perceber pela disseminação mundial dos programas Big Brother, mas principalmente pela manipulação descarada de informação descrita no livro, onde o jornalista protagonista tinha por ofício inventar notícias dentro dos padrões estabelecidos pelo patrão.

Nenhum profeta pode arriscar-se a um prognóstico de como isso tudo vai terminar. Vai depender de qual parcela da sociedade vai melhor utilizar as novas mídias a seus propósitos: o povo ou o mercado. Impõe-se no momento a defesa intransigente por parte dos cidadãos de que a internet e as novas mídias horizontais permaneçam como território de Mídia Livre.

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