Marx, Brecht e a vida na espiral

26 04 2011

Pessoas todas iguais no imenso formigueiro humano. Mesmas expressões mostrando mesmos sentimentos, apreensões, medos e confusões.

Está na cara dos turistas que andam em bandos por Paris, Florianópolis ou nas pirâmides do Egito. Está na cara das meninas que andam em duplas, dos casais apaixonados, dos casais com cara de casais, e nas dos que andam sós. Somos todos humanos, imperfeitos por natureza. Imperfeitos porque diferentes. Perfeição exige modelo. Não queremos modelos. Iguais humanos desiguais. A desigualdade nos torna iguais. Nenhum igual ao outro. Culpa do livre arbítrio ao qual até os deuses se curvaram e quando o fizeram descobrimos como acabar com eles. Usamos pouco os benefícios de tal descoberta, mas insistimos em ser donos do nosso nariz e metê-lo onde bem entendermos. A herança de Prometeu é nossa grande confusão. Um software autoprogramável aleatório num hardware orgânico extremamente funcional nos faz imprevisíveis.

Tentamos ao longo da existência da espécie estabelecer padrões de comportamento para logo em seguida investirmos ferozes contra eles. Os padrões nos aprisionam e não conseguimos viver sem liberdade. Estabelecemos novos padrões para o exercício da liberdade para novamente nos sentirmos aprisionados e rompermos com as cadeias que acabamos de criar num frenesi esquizofrênico-paranóico. É o que somos e não tem jeito, como se a felicidade da espécie fosse o prazer de criar ordens e quebrá-las, criar, quebrar, criar, quebrar. É a dialética capenga da vida humana.  Depois da antítese, em lugar de algo novo criamos o velho.

Atentos podemos ver claramente os dois momentos. Conscientes da condição de livres, não sabemos o que fazer com a liberdade e com tantas liberdades em exercício ao mesmo tempo ela passa a se expressar pelas individualidades. As individualidades entram em conflito umas com as outras. Os conflitos geram sensação de insegurança e aí começa o segundo momento.

A insegurança gera falsa necessidade de alguma ordem que estabeleça (ou re-estabeleça) a sensação de tranquilidade talvez nunca encontrada de fato. A segurança almejada assume a forma de previsibilidade e criam-se regras para dizer que amanhã será igual a hoje. Quando a segurança fundada em previsibilidade se estabelece, volta o conflito pois imperfeição e imprevisibilidade é o que nos define como espécie. Perfeicão e previsibilidade é qualidade para bytes e bits, nunca para humanos. Nos prendemos ao que conseguimos criar e esquecemos o que somos.

O ser humano é um eterno correr atrás do próprio rabo na vã expectativa de que um dia sairemos do círculo. Esperança que logo vira fé e em seguida cria um deus e uma religião que mais adiante teremos que destruir.

A evolução da espécie humana é uma espiral que só faz acrescentar voltas em torno do mesmo ponto de tempos em tempos. Nosso desenvolvimento limita-se a duas dimensões de uma espiral plana. Enquanto não sairmos disso, ficaremos nisso diria sério e coçando a barba, o Barão de Itararé. Quando Marx afirmou que a História se repete como farsa e depois como tragédia, não estava limitando tal repetição a apenas estas duas possibilidades. Elas continuam se repetindo a cada volta da espiral.

Grande parte da espécie gosta da segurança como do conforto de um travesseiro macio. Tomar decisões é sempre arriscado, portanto inseguro. Ensinam isso aos executivos. Decidir sobre os rumos da espécie então, que horror! Para evitar a exposição pessoal a tantos riscos o mais fácil é terceirizar o risco e deixar que outros decidam por nós. Marx entendeu isto no século dezenove. Já estamos no vinte e um e tudo continua como sempre. O velho barbudo chamou o fenômeno de alienação (vamos falar baixinho senão muita gente se sente ofendida). Na dita democracia a maioria dos travesseiros macios legitima assim as novas ordens criadas pelos terceirizados no poder. Mas Brecht também já viu isto, há muito tempo e chamou os do travesseiro de analfabetos políticos.

A cada nova volta, no entanto, há os que não deitam a cabeça em plumas nem aceitam o vil papel de decidir pelos outros aproveitando para agir em proveito próprio. Normalmente os que não aceitam as coisas como estão, trazem nas costas as marcas da opressão dos chicotes de aluguel, mas assumem o papel de mostrar aos que dormem que a evolução humana só dá saltos quando está longe do travesseiro e quando estamos dispostos a enfrentar o risco do imprevisível para buscar o impossível.

Marx chamava isso de luta de classes. Aqueles que a cada volta da espiral insistem em tocar sinos para acordar os que dormem, Brecht chamou de imprescindíveis.

Em alguma volta, em vez de criarmos outro deus, sairemos do circulo plano e descobriremos outra dimensão para onde apontar nossa evolução. Ou seguiremos andando em círculos, sempre indo e sempre voltando ao mesmo lugar.

Que não nos faltem outros Marx e outros Brecht, e muito vinho.

Toda esta conversa talvez tenha sido inspirada em alguma esquina de Paris por onde andaram, cada um em seu tempo, os companheiros Karl e Berthold. Talvez no L’Étoile Manguante na Rue Vieille du Temple após várias verres du vin rouge.








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