A humanidade numa barraca preta (*)

4 03 2011

Ao contrário do que fazem pensar as notícias publicadas nos jornais diários, os Sem Terra não devem ser entendidos simplesmente como trabalhadores rurais que lutam para voltar ao campo de onde foram expulsos por um progresso desregrado. Este é cada vez mais o movimento dos excluídos de nossa sociedade. Eles representam também os excluídos das cidades que vivem sob pontes e viadutos se alimentando do lixo, pedindo esmolas e sonhando com uma vida digna.

Mas o que deveria fazer alguém nesta situação subumana? O salário mínimo é ridículo e, mesmo assim, não há emprego. Eles são o que sobrou, depois do processo de seleção do mercado. São desqualificados numa sociedade que cada vez exige mais qualificações. O trabalho braçal na linha de produção é substituído por robôs. Em vez de trabalhar menos com as bênçãos da tecnologia, os humanos perdem os empregos. A construção civil, último reduto para trabalhadores desqualificados não dá mais conta. As políticas econômicas da moda, de tempos em tempos, esquizofrenicamente, declaram guerra à classe média – seu mercado. No campo, os minifúndios e até os velhos latifúndios dos coronéis são substituídos por grandes sociedades anônimas rurais altamente mecanizadas e totalmente desumanizadas. O trabalhador rural é expulso do campo, chega na cidade e não encontra mais trabalho como dantes. Alguns, mais exaltados partem para uma guerra individual pela própria sobrevivência. Tomam uma arma nas mãos e assaltam os que têm mais do que ele. Como não têm nada, ter qualquer coisa é ter mais do que ele, ainda que seja um par de tênis ou um salário mínimo no bolso de um privilegiado velhinho aposentado.

Os que não tem a coragem de pegar numa arma e atacar outros iguais (nem tão iguais às vezes), vão parar embaixo dos viadutos e atacam as latas de lixo cada vez mais vazias da classe média. Perdem assim sua condição humana e se igualam a um cão de rua sem dono. Estes seres humanos segregados pela própria espécie e colocados à margem do tempo e do espaço que compõem o mundo atual, nada têm a perder e suas vidas valem tão pouco que nem mesmo eles se importam.

Eles não trabalham. Os postos de trabalho estão ocupados, mesmo os que representam a mais vil exploração, sem carteira assinada sem direito a direitos. Eles sequer possuem documentos ou título de eleitor e não assistem televisão. Não existem para o mercado – esta instituição que passou a nortear o rumo da civilização. Não pertencem mais à espécie.

De repente, a um semi homem como este, é dada a oportunidade de sair debaixo do viaduto e passar a ocupar uma barraca de plástico preto na beira de uma estrada junto com outros como ele. Ali pelo menos há comida todos os dias. Não muito, é verdade – arroz, feijão e farinha – mas limpa e cozida todo o dia. É melhor do que aquela que ele procurava nas latas de lixo, e se alegrava quando vinha envolta em um saco plástico que muitas donas de casa conscientes do destino daquele lixo, e movidas por um senso de caridade cristã, separaram a fim de facilitar a coleta dos catadores.

Esse homem que sai debaixo do viaduto não tem terra, não tem teto, não tem vida humana. O Movimento dos Sem Terra lhe devolve a condição humana. Mas que condição é esta? Viver debaixo de uma barraca à beira de uma estrada poeirenta? E além disso arriscar-se a morrer pela bala do jagunço, policial ou jagunço-policial a mando de um juiz de mãos nem sempre muito limpas.

Se nos dispuséssemos a dar uma espiada melhor, veríamos que há muito mais do que isto debaixo do plástico preto. Ali, aquela quase besta vai recuperar uma capacidade que a nenhum outro animal é dada pois é privilégio dos homens: a capacidade de produzir seus meios de vida. Seu primeiro trabalho será talvez cortar o arame de uma cerca e derrubar uma porteira e o segundo pegar uma enxada e trabalhar a terra. Para isto não é preciso qualificação especial. Assim fazendo estará finalmente se diferenciando dos demais animais que habitam o planeta. A capacidade de trabalhar é o que permite ao homem construir sua própria história e, por isto mesmo, é uma capacidade da qual a privação significa sua morte como homem.

Ora, se até mesmo a lei feita pela parcela da sociedade que vive em condições humanas considera a defesa da vida como uma legítima defesa, como podemos condenar este homem por defender sua vida ocupando uma terra vazia com o objetivo de nela trabalhar e recuperar, assim, sua condição humana?

É por isso que quando o ex-presidente intelectual, diz em ato solene, frente às câmeras, com seu estilo de professor de pré-escola falando a crianças, que o governo não pode permitir o mau uso de uma causa justa – referindo-se às ocupações – o líder dos sem terra reafirma, com total indiferença às palavras do professor, que as ocupações vão continuar até que se faça de fato a Reforma Agrária e a fome seja extinta. Ou seja, até que todos tenham direito a ser homens, mesmo que, para isto tenham que enfrentar as políticas neoliberais, mesmo que muitos tenham ainda que, literalmente, morrer por isso. Ao trocar o viaduto pelo plástico preto eles aprendem que morrer lutando por justiça é mais humano que morrer passivamente envenenado por restos de comida podre.

Estes homens já descobriram que a alternativa à barraca de plástico na beira da estrada é uma lata de lixo à beira de uma sociedade cada vez mais estranha à espécie humana.

(*) Escrevi este texto há alguns anos atrás, provavelmente no início do governo Lula. Os “indicadores econômicos” no pais melhoraram um pouquinho de lá para cá mas os problemas continuam os mesmos de modo que o conteúdo permanece atual. Ainda mais com o retrocesso na politica econômica deste início de governo Dilma. Fora Palloci!

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