Prossexualmente correto

9 02 2011

Ninguém sabe ao certo onde ou quando aconteceram os fatos aqui narrados. Uma das maiores dificuldades para situá-los no tempo e no espaço é que os métodos de trabalho citados no relato possuem tamanha capacidade de sobreviver alheios a qualquer forma de evolução, a despeito de todo o avanço tecnológico, que poderiam situar-se nos últimos cinquenta anos ou nos próximos.

O rosto da chefe era magro, com depressões no lugar das bochechas. Os cabelos crespos e mal cuidados estavam sempre despenteados e espetados. Não tinha tempo de se preocupar com a imagem. Olhos cansados se escondiam sob profundas olheiras. Trabalhava freneticamente com grande ansiedade. Quase não dormia à noite revisando mentalmente o serviço do dia. Era um vício do qual não conseguia se livrar. Não podia errar. Um erro é um desastre.

Inúmeros papéis e pastas de processos espalhavam-se caoticamente sobre a mesa. A chefe tinha obrigação de lê-los e colocar bilhetinhos presos com clips na capa de cada um, com as instruções sobre o que deveria ser feito com eles. Em cada lado da grande mesa tinha um telefone. Misturada no meio da papelada encontrava-se toda a parafernália de artefatos burocráticos como um grande número de carimbos, como os carimbos redondinhos para escrever dentro o número da página. É óbvio que, bastaria escrever número da página diretamente e se pouparia tempo. Mas o Memorando Circular n° 007/62 (o número depois da barra refere-se ao ano de edição do memorando, embora o século não seja informado), diz que todas as páginas devem levar no canto superior direito o carimbo oficial de numeração de folhas e a rubrica do funcionário que numerou. Além disso, o Provimento n° 001/63 determina que, em caso de erro na numeração da página, um novo carimbo redondinho deve ser colocado logo abaixo do primeiro, registrando-se no seu interior o número correto em vermelho, com a devida rubrica do funcionário que renumerou. Vermelho em burocratês, não é vermelho, é carmim.

Depois de renumerar a carmim a página errada, o funcionário deve colocar outro carimbo no verso, chamado Certidão de Renumeração para avisar aos leitores que a página anterior foi renumerada a carmim em razão de erro. Ninguém se lembra quem inventou os memorandos e os provimentos e, como não há tempo para pensar, resta obedecê-los. Alguns até se justificam, segundo os mais velhos. O carimbo é fundamental pois de outra forma, como os leitores saberiam que a página foi renumerada a carmim? Afora o carmim da renumeração, a cor oficial de caneta para se escrever nos processos é o preto. Além dos carimbos, uma grande caixa de clips, um potinho cheio de canetas pretas e vermelhas e muitos lápis compõem a superfície da mesa. No canto direito um apontador de lápis e bloquinhos de papel para bilhetinhos. Os bilhetinhos são escritos a lápis para não gastar tinta das canetas. Orientação superior. Toca o telefone da esquerda. A chefe atende: – Alô? Aqui é do Serviço de Controle de Numeração de Páginas e Conferência de Atividades Datilográficas… Qual é o assunto?… Isto é em outro ramal, um momento, vou passar a ligação. Discou rapidamente o número do ramal do Setor de Conferência de Vírgulas e Tabulação, o SECVIT. O telefone da direita tocou. Ela atendeu e desligou o da esquerda. – Alô? Como? Não, você ligou para o Serviço errado. As vírgulas dos processos de pagamento são responsabilidade do Setor de Conferência de Vírgulas e Tabulação do Serviço de Preparação de Documentos para a Elaboração da Folha de Pagamentos, SPREDEFOP. Aqui é o Serviço de Controle de Numeração de Páginas e Conferência de Atividades Datilográficas, SECONPCONAD… Eu não sei qual é o ramal do SPREDEFOP, são 637 ramais nesta repartição, pergunte à telefonista…um momento, vou passar a ligação para ela, isto é fácil, tem um botão especial para chamar a telefonista.

Suas ações eram automáticas. Não precisava pensar. Tudo já havia sido pensado por alguém. Tinham um armário cheio de pastas com manuais, memorandos circulares, provimentos e regulamentos. Provimento é um regulamento com outro nome. Ela, no entanto, depois de anos de prática, não precisava mais consultá-los. Já tinha decorado todos. Este era o requisito para galgar postos na hierarquia da repartição. As outras pessoas na sala trabalhavam em silêncio, submersas em mesas transbordantes de processos. Liam quietas todos os processos e colocavam carimbos de conferido. Eram cinco conferências para cada processo. Depois todos voltavam para a mesa da chefe que os conferia de novo. Nada podia sair errado.

Todos na sala suavam muito. Não podiam ligar o ar condicionado pois tinham ordem superior de economizar energia. Uma funcionária levanta a cabeça e pergunta meio receosa:

– Chefe, porque escrevem “com fulcro no artigo 23”? Não era mais fácil dizer “baseado no artigo 23”?

A chefe, contrariada por ser obrigada a responder pergunta tão banal, interrompe um bilhetinho pela metade e responde sem esconder a irritação:

– O artigo 27 do Regulamento Geral de Redação Processual determina que para dizer “baseado” em um artigo, deve-se escrever “com fulcro”. Agora vai trabalhar.

– Mas chefe, porque o regulamento diz isso? Será que não dá pra mudar? Fica tão esquisito “com fulcro”.

– Menina! Onde já se viu contestar um regulamento. Há trinta e dois anos que eu trabalho aqui e sempre foi assim, nunca ninguém reclamou. Eu logo vi que você era daquelas revolucionárias. Desse jeito você nunca vai ser alguém aqui. – Mas eu pensei que… Foi interrompida pela chefe bruscamente: – Nossa obrigação não é pensar. Quem pensa são os Diretores. Eles sabem como as coisas devem ser feitas. É por isso que você está ainda na 1ª conferência. Se continuar assim, nunca vai ser promovida a 2ª.

O funcionário da mesa ao lado da revolucionária observava a cena espiando por cima dos óculos. Não estava interessado nas palavras da chefe mas a revolucionária era uma gracinha. Ela levantou e foi até o arquivo pegar uma almofada para carimbos nova. Ele foi atrás. Chegou pelas costas da colega e se encostou nela segurando-a pela cintura com as duas mãos. Ela estremeceu e olhou. Todos olharam sem se mover. Com fulcro em incontida tesão, continuou, cego para a realidade ao seu redor. Ela apavorada, mas sem resistência. Ele esfregou o rosto no dela enquanto movimentava a cintura para frente e para trás e apertava mais. Olhos revirados, rostos quentes, ela gostava. Virou-se de frente e jogou a cabeça para trás. Ele foi direto ao pescoço como um vampiro. Suavam muito. A chefe, imóvel, entrou em estado de choque. Não conseguia se mexer. Só pensava. Não acreditava no que via. De tão tensa quebrou a ponta do lápis ao apertá-lo contra um bilhetinho interrompido. A estas alturas o casal revolucionário já se beijava ardentemente no meio da sala, embalado pelo som de Vivaldi que vinha de uma caixa de som fanha colocada sobre um armário. Ninguém dizia nada. Todos paralisados assistiam a dança dos dois cada vez mais depravados. Ele desabotoou a blusa da moça e deslizou a boca do pescoço para os seios. Ninguém acreditava. Era como se vissem um filme. Com o queixo o depravado empurrou o sutiã da moça para baixo e mordeu suavemente o biquinho macio abocanhando-o em seguida para senti-lo enrijecer dentro da boca no instante seguinte. Ela gemia cada vez mais alto. As outras funcionárias se remexiam nas cadeiras e sentiam tremer por dentro. Não se lembravam mais da última vez que sentiram aquilo. Todos suavam. Dura como uma estátua, a chefe rememorava todos os memorandos, regulamentos e provimentos sem nada encontrar sobre o que fazer numa situação destas. Não haviam previsto nada parecido. Típico caso omisso. O que poderia fazer? Tinha que fazer alguma coisa. Ou não tinha? Se o regulamento não manda fazer é porque não deve ser feito ou é esquecimento? Se fosse para não fazer nada devia estar escrito expressamente que não era para fazer nada? Como interpretar o silêncio do regulamento?

O neo-revolucionário, a estas alturas, já tinha deitado a moça sobre a sua mesa, depois de afastar os processos, carimbos, e caixas de clips que se espalharam pelo chão e levantava a saia da colega até a cintura. Que bom que o regulamento obrigava as moças a usar saias. As calças justas eram terminantemente proibidas. Seu uso era considerado falta de decoro na função pública. Ele abre o fecho da própria calça, livre afinal e afasta a calcinha do caminho. Ela deixa escapar um gemido longo que sobe e vai lentamente sumindo no ar acompanhado por semelhante som, em intensidade menor, produzido quase em coro pelas espectadoras. Ele grita. Os dois ficam um instante em delírio e quando abrem os olhos e se olham têm um sorriso cúmplice e safado nos lábios e aquela calma de quem olha para o mar numa praia deserta. Os olhos das outras arregalados. As bocas abertas, os queixos caídos, a baba escorrendo. Todas suspiram ao mesmo tempo, inclusive a chefe. Como se estivesse no aconchego de um quarto, o casal se recompõe. Ela desce da mesa, arruma a calcinha e, enquanto caminha até o arquivo, como se nada tivesse acontecido, dá uma ajeitada na saia. Ele fecha a calça, ainda suando em bicas, senta e começa calmamente a arrumar os processos, os carimbos e a juntar os clips espalhados no chão. Ela senta, abre um processo e após alguns minutos concentrada, ante os olhares ainda estupefatos dos outros, levanta os olhos e pergunta com voz dengosa:

– Chefe, a expressão “sob a égide da lei” deve vir entre vírgulas?

A chefe sai do transe, pensa um pouco, sacode a cabeça para ter certeza de que está acordada, percorre mentalmente os manuais e responde irritada:

– Esta expressão não está prevista no regulamento. Não é possível que alguém tenha escrito isto num processo. Quem foi o imbecil?

– Foi o Presidente, responde a outra.

A chefe se assusta. Ofender o Presidente está previsto no regulamento e a pena é guilhotina! Ela controla a situação e responde rápido, antes que alguém tenha tempo de constatar o crime.

– Se o regulamento não proíbe é porque pode ser feito.

– Mas é entre vírgulas ou não?

– Ora, ponha do jeito que quiser. Você não pensa?

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