Um pouco menos de poesia e delírio

25 01 2011

Eu não pretendia escrever textos muito racionais neste blog, mas como jornalista sou obrigado a deixar aqui meu protesto contra o que os grupos de mídia fazem em nome da minha profissão.

Mais uma vez – e o que se poderia esperar do grupo Abril? – a revista Veja pratica o mais sujo e vergonhoso uso ideológico que se pode fazer de um veículo de comunicação. Enquanto bancos e outros tipos de empresas são obrigados por lei a se constituirem sob a forma de Sociedades Anônimas (SA) com ações no mercado de capitais, os veículos de rádiodifusão são proibidos de se organizarem dessa forma. Em tese, isto se dá para que tenhamos uma pessoa física objetivamente responsável para processar caso o veículo descumpra suas obrigações constitucionais. Balela. No Brasil se alguém ousar falar em responsabilizar um órgão privado de comunicação por barbaridades cometidas contra a verdade, contra o povo, é imediatamente acusado de atentar contra a liberdade de imprensa. Aqui, liberdade de imprensa é a liberdade do dono do jornal dizer o que quiser. Ou será que a minha liberdade de imprensa é igual à do dono da Veja ou da Globo? Tanto faz como uma empresa se organiza. Faço este registro para deixar claro que todos os grupos de mídia no Brasil, como as redes de televisão e todas as rádios, pertencem a famílias. É o caso do Grupo Abril, da família Civita, gigante do mercado editorial, especializado em revistas de todos os tipos, de Quatro Rodas a Playboy, de Cláudia a Nova e por aí vai. Os Civita chegaram ao Brasil, vindos dos Estados Unidos junto com a ditadura militar e em paralelo às Organizações Globo da família Marinho, cresceu e prosperou com velocidade incrível servindo como sustentáculo ideológico do regime que protegeram e do qual receberam proteção. Coincidência? Claro que não. Sempre é bom lembrar, por mais redundante que pareça  que durante a ditadura a Democracia que tanto defendemos foi suspensa. Não se votava para presidente, governador, prefeitos de capitais, nem para presidente de DCE. Tínhamos Senadores nomeados pelo General de plantão e vigia uma Lei de Segurança Nacional que permitia ao regime prender e matar sem sequer um processo com ampla defesa. A Constituição era “outorgada”, palavrinha bonita, jurídica, para dizer imposta, sem passar por congresso, legislativo ou coisa nenhuma. Isso era a ditadura. A gente esquece rápido.

Voltando aos donos da mídia, obviamente tendo dono, tais organizações reproduzem a voz do dono sob a aparência de jornalismo. E quem são os donos dos grandes grupos? São grandes e milionários empresários antes de mais nada. Nessa condição pertencem a uma classe que se mantém no poder desde que o Brasil é Brasil.

Veja é a revista preferida da elite brasileira e de uma classe média desmiolada e manipulada que pensa que é esperta, inteligente e bem informada. Sou obrigado a citar aqui uma frase genial e indignada de Juan Carlos Onetti, um mordaz escritor uruguaio. Indignado, ele bradou : “Todos los vícios de que pueden depujarse las demás clases son recoridos por la classe média. No hay nada más despreciable, más inútil.. Y Cuando a su condición de pequeños burgueses agregan la de intelectuales, merecen ser barridos sin juicio prévio.”

Na minha opinião a sentença de Onetti reproduz com perfeição o perfil dos assinantes e leitores que sustentam esta excrescência chamada Veja e saem repetindo como papagaios as opiniões do dono da revista e de seus colunistas amestrados.

Chega. Amanhã volto aos delírios. Abaixo reproduzo a nota oficial assinada pelo Ministério Público, juízes, prefeito, Defensoria Pública e OAB de Nova Friburgo acerca de uma reportagem infame publicada no lixo da Abril.

E conclamo a todas e todos: Não sejam tratados como imbecis. Não assinem Veja e se por acaso tiveram esta triste ideia iludidos que aquilo é jornalismo informativo, cancelem suas assinaturas.

NOTA CONJUNTA DE REPÚDIO

O PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO, O MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO, A DEFENSORIA PÚBLICA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO, A OAB/RJ, POR SUA 9ª SUBSEÇÃO, O MUNICÍPIO DE NOVA FRIBURGO, O DIRETOR DO IML-AP/RJ E O DELEGADO DE POLÍCIA TITULAR DE NOVA FRIBURGO, vem apresentar nota conjunta repudiando a matéria publicada na Revista Veja, edição 2200, ano 44, nº 03, de 19 de janeiro de 2011, em especial, o conteúdo do último parágrafo de fls. 54 até o primeiro parágrafo de fls. 56, em razão de seu conteúdo totalmente inverídico, conforme será esclarecido a seguir:

1) Inicialmente, cumpre esclarecer que em momento algum os corpos da vítimas fatais ficaram sobrepostos uns sobre os outros no Instituto de Educação de Nova Friburgo, local em que foi montado um posto provisório do IML, em razão da catástrofe que assolou toda esta região, mas sim acomodados separadamente lado a lado no ginásio do Instituto;

2) O acesso ao referido Instituto foi limitado às autoridades públicas e aos integrantes das Instituições inicialmente referidas, sendo certo que o ingresso dos familiares no local para a realização de reconhecimento somente foi permitido após autorização de um dos integrantes das mencionadas instituições e na companhia permanente do mesmo;

3) A liberação dos corpos para sepultamento somente foi autorizada após o devido reconhecimento efetuado por um familiar, sendo totalmente falsa a afirmação de que “ao identificar um conhecido, bastava levá-lo embora, sem a necessidade de comprovar o parentesco”. Frise-se, que mesmo com o reconhecimento, foi realizado posteriormente procedimento de identificação pelos peritos da Policia Civil do Estado do Rio de Janeiro, bem como de outros cedidos pela Polícia Civil de São Paulo, pela Polícia Federal e pelo Exercito Brasileiro, estes por intermédio da Secretaria Nacional de Segurança Pública, com a análise da impressão digital, do exame de arcada dentária e exame de DNA;

4) Ademais, cada um dos falecidos foi colocado em uma urna e sepultado individualmente, não existindo qualquer tipo de sepultamento coletivo, mas sim vários sepultamentos individuas e simultâneos no mesmo cemitério;

5) Em meio a infeliz perda de 371 vidas, somente neste Município de Nova Friburgo (até presente momento) é importante registrar que houve apenas 03 (três) casos de divergência dos reconhecimentos feitos pelos parentes, os quais estão sendo devidamente esclarecidos pelos peritos do IML/Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro, através do exame das impressões digitais, das arcadas dentárias e do exame de DNA.

Assim, ao contrário do que a narrativa contida na matéria publicada leva o leitor a concluir, não houve uma feira livre na busca e no sepultamento de corpos, mas ao contrário, um trabalho sério realizado por profissionais exemplares, dedicados e comprometidos em minimizar, naquilo em que era possível, o sofrimento da população local, e ainda preservar, dentro das possibilidades existentes, a ordem e a saúde pública.

Aliás, o respeito pelas famílias e pelos corpos dos cidadãos falecidos não permitiria que os mesmos fossem tratados pelas autoridades da maneira descrita pelas jornalistas.

Assim, é com extremo pesar, que em meio a um evento trágico e que entristeceu a todos, tenhamos que vir a público repudiar as inverdades publicadas, de cunho meramente sensacionalista, a fim de evitar que o desserviço gerado pela matéria venha a causar mais prejuízo, sofrimento e comoção aos familiares das vítimas e a toda nossa comunidade.

Nova Friburgo, 21 de janeiro de 2011.

Paulo Vagner Guimarães Pena
Juiz de Direito
Dirigente do Fórum e do 9º NUR-N. Friburgo
Matrícula 21.121

Fernando Luis G. de Moraes
Juiz de Direito
Matrícula 29.813

Gustavo Henrique Nascimento Silva
Juiz de Direito
Matrícula 27.318

Hédel Nara Ramos Jr.
Promotor de Justiça
Coordenador Regional do Ministério Público
Matrícula 1.287/MPRJ

Dermeval Barboza Moreira Neto
Prefeito do Município de Nova Friburgo

Marcelo Barucke
Defensor Público
Coordenador Regional da Defensoria Pública
Matrícula nº 817.882-4

Carlos André Rodrigues Pedrazzi
Advogado – OAB/RJ nº 59820
Presidente da 9ª Subseção da OAB/RJ

Rômulo Luiz de Aquino Colly
Advogado – OAB/RJ nº 110.995
Vice-Presidente da 9ª Subseção da OAB/RJ

Sérgio Simonsen
Perito Legista
Diretor do IML-AP/RJ
Matrícula 872.246-4

José Pedro Costa da Silva
Delegado de Polícia de Nova Friburgo

Anúncios

Ações

Information

One response

25 01 2011
Ernani Texeira dos Santos

Me somo a tua indignação. Um abraço

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




%d blogueiros gostam disto: