Acerca da mediocridade

31 01 2011

Tento entender a mediocridade. Obviamente não é um problema genético porque não é e pronto. Penso mil coisas, mil causas. Me ocorre que a mediocridade é a característica das pessoas que se crêem mediocres. A primeira vista poderíamos pensar numa causa externa, uma influência do meio. Mas não é. Parece haver pessoas que ao se descobrirem pessoas, lá na tenra idade, se julgam e se sentenciam: sou meio incapaz. Em seguida concluem num raciocínio aparentemente lógico que não adianta querer ser diferente. A partir daí aceitam e se contentam com o suposto fato de serem menos capazes que outros. Absurdo. Pertencemos à mesma espécie e temos todos as mesmas capacidades potenciais de desenvolver nossas capacidades.

Jayme Caetano Braum, do alto de sua payada missioneira sentenciou a si próprio: sou gaúcho e isto me basta. A frase que por si só já merece ser citada sempre que houver oportunidade, em nada se aplica ao caso, mas a idéia nela contida é aplicada ao contrário pelos que se sentenciaram mediocres. Ser gaúcho é a qualidade atribuída a todos os que nasceram no Rio Grande do Sul – Brasil. Ser mediocre entretanto, não é qualidade natural que se possa atribuir a todos que nasceram na espécie humana.

Não obstante, tais humanos se declararam mediocres ignorando o fato de serem portadores do mesmo código genético dos demais e se sentenciaram menos capazes que outros da mesma espécie ainda que não o fossem.  Isto feito, vivem a cumprir sua própria sentença para desespero de alguns e deleite de outros que os exploram descaradamente sem encontrar resistência. Marx chamou isto de alienação. Passado esse tempo todo, penso que a alienação pode ser fruto da mediocridade. E se for, só muda com choque, nem que seja elétrico. Mas o mais provável é que a mediocridade reinante seja fruto da alienação. A alienação é fenomeno induzido. Os barões da mídia que o digam. E tome Big Brother. Um povo mediocre é mais facilmente dominado. “El enemigo siempre parece más grande cuando se lo mira de rodillas”, disse San Martin.

A mediocridade humana  só vai acabar quando não tivermos mais pessoas alienadas o que só vai acontecer quando trocarmos de classe dominante. Então mãos à obra. Ou continuaremos com aquela sensação esquisita de ficar sem assunto quando todos em volta começam a falar do Big Brother, tratando seus participantes pelo nome.

Tudo isso pode ser um monte de bobagens sem qualquer significado científico ainda que possa eventualmente servir para diversão ou martírio intelectual de quem está lendo.

Tudo isso na verdade decorre da irritação que às vezes toma conta de mim em relação à mediocridade que assola grande parte da humanidade, e que às vezes bate à minha porta personificada em alguém.

Talvez seja covardia… afinal, com um pouquinho de coragem, sempre poderemos nos rebelar e escolher um caminho diferente dos que escolheram para nós.

Por hoje chega





Um pouco menos de poesia e delírio

25 01 2011

Eu não pretendia escrever textos muito racionais neste blog, mas como jornalista sou obrigado a deixar aqui meu protesto contra o que os grupos de mídia fazem em nome da minha profissão.

Mais uma vez – e o que se poderia esperar do grupo Abril? – a revista Veja pratica o mais sujo e vergonhoso uso ideológico que se pode fazer de um veículo de comunicação. Enquanto bancos e outros tipos de empresas são obrigados por lei a se constituirem sob a forma de Sociedades Anônimas (SA) com ações no mercado de capitais, os veículos de rádiodifusão são proibidos de se organizarem dessa forma. Em tese, isto se dá para que tenhamos uma pessoa física objetivamente responsável para processar caso o veículo descumpra suas obrigações constitucionais. Balela. No Brasil se alguém ousar falar em responsabilizar um órgão privado de comunicação por barbaridades cometidas contra a verdade, contra o povo, é imediatamente acusado de atentar contra a liberdade de imprensa. Aqui, liberdade de imprensa é a liberdade do dono do jornal dizer o que quiser. Ou será que a minha liberdade de imprensa é igual à do dono da Veja ou da Globo? Tanto faz como uma empresa se organiza. Faço este registro para deixar claro que todos os grupos de mídia no Brasil, como as redes de televisão e todas as rádios, pertencem a famílias. É o caso do Grupo Abril, da família Civita, gigante do mercado editorial, especializado em revistas de todos os tipos, de Quatro Rodas a Playboy, de Cláudia a Nova e por aí vai. Os Civita chegaram ao Brasil, vindos dos Estados Unidos junto com a ditadura militar e em paralelo às Organizações Globo da família Marinho, cresceu e prosperou com velocidade incrível servindo como sustentáculo ideológico do regime que protegeram e do qual receberam proteção. Coincidência? Claro que não. Sempre é bom lembrar, por mais redundante que pareça  que durante a ditadura a Democracia que tanto defendemos foi suspensa. Não se votava para presidente, governador, prefeitos de capitais, nem para presidente de DCE. Tínhamos Senadores nomeados pelo General de plantão e vigia uma Lei de Segurança Nacional que permitia ao regime prender e matar sem sequer um processo com ampla defesa. A Constituição era “outorgada”, palavrinha bonita, jurídica, para dizer imposta, sem passar por congresso, legislativo ou coisa nenhuma. Isso era a ditadura. A gente esquece rápido.

Voltando aos donos da mídia, obviamente tendo dono, tais organizações reproduzem a voz do dono sob a aparência de jornalismo. E quem são os donos dos grandes grupos? São grandes e milionários empresários antes de mais nada. Nessa condição pertencem a uma classe que se mantém no poder desde que o Brasil é Brasil.

Veja é a revista preferida da elite brasileira e de uma classe média desmiolada e manipulada que pensa que é esperta, inteligente e bem informada. Sou obrigado a citar aqui uma frase genial e indignada de Juan Carlos Onetti, um mordaz escritor uruguaio. Indignado, ele bradou : “Todos los vícios de que pueden depujarse las demás clases son recoridos por la classe média. No hay nada más despreciable, más inútil.. Y Cuando a su condición de pequeños burgueses agregan la de intelectuales, merecen ser barridos sin juicio prévio.”

Na minha opinião a sentença de Onetti reproduz com perfeição o perfil dos assinantes e leitores que sustentam esta excrescência chamada Veja e saem repetindo como papagaios as opiniões do dono da revista e de seus colunistas amestrados.

Chega. Amanhã volto aos delírios. Abaixo reproduzo a nota oficial assinada pelo Ministério Público, juízes, prefeito, Defensoria Pública e OAB de Nova Friburgo acerca de uma reportagem infame publicada no lixo da Abril.

E conclamo a todas e todos: Não sejam tratados como imbecis. Não assinem Veja e se por acaso tiveram esta triste ideia iludidos que aquilo é jornalismo informativo, cancelem suas assinaturas.

NOTA CONJUNTA DE REPÚDIO

O PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO, O MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO, A DEFENSORIA PÚBLICA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO, A OAB/RJ, POR SUA 9ª SUBSEÇÃO, O MUNICÍPIO DE NOVA FRIBURGO, O DIRETOR DO IML-AP/RJ E O DELEGADO DE POLÍCIA TITULAR DE NOVA FRIBURGO, vem apresentar nota conjunta repudiando a matéria publicada na Revista Veja, edição 2200, ano 44, nº 03, de 19 de janeiro de 2011, em especial, o conteúdo do último parágrafo de fls. 54 até o primeiro parágrafo de fls. 56, em razão de seu conteúdo totalmente inverídico, conforme será esclarecido a seguir:

1) Inicialmente, cumpre esclarecer que em momento algum os corpos da vítimas fatais ficaram sobrepostos uns sobre os outros no Instituto de Educação de Nova Friburgo, local em que foi montado um posto provisório do IML, em razão da catástrofe que assolou toda esta região, mas sim acomodados separadamente lado a lado no ginásio do Instituto;

2) O acesso ao referido Instituto foi limitado às autoridades públicas e aos integrantes das Instituições inicialmente referidas, sendo certo que o ingresso dos familiares no local para a realização de reconhecimento somente foi permitido após autorização de um dos integrantes das mencionadas instituições e na companhia permanente do mesmo;

3) A liberação dos corpos para sepultamento somente foi autorizada após o devido reconhecimento efetuado por um familiar, sendo totalmente falsa a afirmação de que “ao identificar um conhecido, bastava levá-lo embora, sem a necessidade de comprovar o parentesco”. Frise-se, que mesmo com o reconhecimento, foi realizado posteriormente procedimento de identificação pelos peritos da Policia Civil do Estado do Rio de Janeiro, bem como de outros cedidos pela Polícia Civil de São Paulo, pela Polícia Federal e pelo Exercito Brasileiro, estes por intermédio da Secretaria Nacional de Segurança Pública, com a análise da impressão digital, do exame de arcada dentária e exame de DNA;

4) Ademais, cada um dos falecidos foi colocado em uma urna e sepultado individualmente, não existindo qualquer tipo de sepultamento coletivo, mas sim vários sepultamentos individuas e simultâneos no mesmo cemitério;

5) Em meio a infeliz perda de 371 vidas, somente neste Município de Nova Friburgo (até presente momento) é importante registrar que houve apenas 03 (três) casos de divergência dos reconhecimentos feitos pelos parentes, os quais estão sendo devidamente esclarecidos pelos peritos do IML/Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro, através do exame das impressões digitais, das arcadas dentárias e do exame de DNA.

Assim, ao contrário do que a narrativa contida na matéria publicada leva o leitor a concluir, não houve uma feira livre na busca e no sepultamento de corpos, mas ao contrário, um trabalho sério realizado por profissionais exemplares, dedicados e comprometidos em minimizar, naquilo em que era possível, o sofrimento da população local, e ainda preservar, dentro das possibilidades existentes, a ordem e a saúde pública.

Aliás, o respeito pelas famílias e pelos corpos dos cidadãos falecidos não permitiria que os mesmos fossem tratados pelas autoridades da maneira descrita pelas jornalistas.

Assim, é com extremo pesar, que em meio a um evento trágico e que entristeceu a todos, tenhamos que vir a público repudiar as inverdades publicadas, de cunho meramente sensacionalista, a fim de evitar que o desserviço gerado pela matéria venha a causar mais prejuízo, sofrimento e comoção aos familiares das vítimas e a toda nossa comunidade.

Nova Friburgo, 21 de janeiro de 2011.

Paulo Vagner Guimarães Pena
Juiz de Direito
Dirigente do Fórum e do 9º NUR-N. Friburgo
Matrícula 21.121

Fernando Luis G. de Moraes
Juiz de Direito
Matrícula 29.813

Gustavo Henrique Nascimento Silva
Juiz de Direito
Matrícula 27.318

Hédel Nara Ramos Jr.
Promotor de Justiça
Coordenador Regional do Ministério Público
Matrícula 1.287/MPRJ

Dermeval Barboza Moreira Neto
Prefeito do Município de Nova Friburgo

Marcelo Barucke
Defensor Público
Coordenador Regional da Defensoria Pública
Matrícula nº 817.882-4

Carlos André Rodrigues Pedrazzi
Advogado – OAB/RJ nº 59820
Presidente da 9ª Subseção da OAB/RJ

Rômulo Luiz de Aquino Colly
Advogado – OAB/RJ nº 110.995
Vice-Presidente da 9ª Subseção da OAB/RJ

Sérgio Simonsen
Perito Legista
Diretor do IML-AP/RJ
Matrícula 872.246-4

José Pedro Costa da Silva
Delegado de Polícia de Nova Friburgo





Parques e paixões

24 01 2011
  • Todos os parques tem em comum seus frequentadores. É a cultura do ócio. Parques no outono, quando o sol é uma dádiva a esquentar os dias quase frios. Parques são família. Numa tarde de outono ensolarado o Parque do Barigui se parece com o da Recoleta ou com a Redenção. O povo quer sol, grama, liberdade. Fugir do asfalto, da asfixia das calçadas cinzentas cercadas de prédios altos, de onde são se vê o céu e se respira ar tóxico. Aqui todos tentam ser anônimos. Todos se despem dos ternos, gravatas, uniformes de trabalho e cobrem o corpo com um abrigo velho, uma camiseta surrada, um tênis velho de guerra e procuram um pedacinho de paz. Quem são? Quem está de baixo destes disfarces? Aquele, rebocando o filho que dirige um jipe de plástico pode ser um bancário, um empresário, um funcionário público. Aqueles dois, olha só aqueles dois. Ao mesmo tempo despertam tesão e inveja de todos os que olham. Corpos colados, bocas sugadas de puro prazer, pura paixão. Sol quente, grama macia. Quem são? Podem ser qualquer coisa. Quem sabe um desempregado com aluguel atrasado, prestes a ser despejado, SPC, serasa…. Ela professora com salário mínimo atrasado, ameaçada de demissão por algum projeto neoliberal. Demissão, talvez empurrão para alguma coisa melhor ou mero incentivo ao desemprego. Qualquer que seja a história de cada um, o certo é que dentro daquele beijo, sob o sol quente na grama do parque, eles não estão pensando nela. Não estão pensando em nada, só a sentir. O mundo em stand by. Este é o espírito dos parques nos domingos ensolarados. Stand by na vida. O sol se vai. As pessoas também. Casais e não casais. Estes, loucos para serem aqueles. Aqueles daqui a pouco querendo ser estes. O que nos leva para a frente é este clima sempre de primeira vez. E assim, continuamos nos atirando na piscina sem saber se ela está cheia ou não. É a porrada da paixão que nos leva incontroláveis para o alto. A paixão é um beijo no parque num dia de sol depois da chuva. O resto é rebordosa.




  • Gatas, guitarras e cachorrada solta

    22 01 2011

    Gosto de escrever sentado num bar, só, tomando um whisky ou um vinho. Escrevo sempre a mão num bloquinho, como antigamente. Pode ser qualquer lugar, um boteco na esquina ou um pub bonitinho como o Black Swan onde escrevi este.

    A fauna do boteco está ansiosa como larvas na carne podre. Gatinhas, gatas coroas, gatas sem rumo. E a cachorrada solta. Olho a banda tocar e tento entender os movimentos das mãos nos instrumentos. Um dia ainda aprendo a tocar alguma coisa. No fim das contas, um braço de guitarra, que é fino como o de um violão folk, é uma área para tamborilar. A batida com a outra mão é outra coisa parecida. Penso que é preciso pegar o sentido da coisa. Os movimentos dos dedos são uma conseqüência da compreensão. Fantasio. Projeções envelhecidas de mulheres do passado irrompem a cada momento. Vi uma possibilidade de imagem para uma amiga, muito mais magra mas com a idade atual. Quem poderá dizer que esta imagem não corresponde à verdade em alguma linha histórica que não passou por aqui? Um dos segredos da bateria está na fixação dos instrumentos que devem ser colados ao chão e não se mexer nem um milímetro mesmo levando porrada o tempo todo. Quantas mulheres ao redor. Tinha uma que me olhava mas fiquei com a sensação que logo após a abordagem ela me diria o preço. Tinha para todos os gostos. E eu tentando entender como se toca guitarra!
    Inusitadamente entram uma mãe e a filha de uns cinco anos. Entram a passo de vencedores. A pequena puxando a ocupação. Isto é que é educar filhos! E o futuro a deus pertence, e os mocinhos sempre vencem no final e eu sou mocinho. E a banda está exatamente na minha frente e na mesa da banda chega um enorme prato de fritas. E eu não estou em dia de caça. Ouvi a expressão “coroa” atrás de mim. É despeito. O caso é que cheguei quando o bar estava lotado e com minha sorte e o otimismo que nunca me deixou, consegui um lugarzinho de frente pra banda, com vista superior do ambiente e esse povo que já estava aí bem antes ainda está em pé tentando se ajeitar. Sou um estranho no ninho, escrevendo em alta velocidade, a mão, num caderninho. E com todo este jazz rolando, tem gente que está aqui como se estivesse escutando pagode, sem dar a mínima. Aquela coisa de treinar posições dos dedos sobre o braço do violão é conversa fiada pra valorizar os professores de música. É só tamborilar e sinconizar os tamborilares da mão esquerda com os da direita. A flautista convidada mata a pau. O baterista usa um pedal que bate num instrumento de sambista parecido com um cone achatado. Talvez falte um pianinho na banda.
    Ôpa! Entram duas vestidas para matar.





    Não é tudo a mesma coisa

    21 01 2011

    Esperar não incomoda quando se tem um copo de whisky na mão. É o caso. E só se faz apostas altas quando se tem cacife prá continuar jogando. Enquanto Freud explica o Diabo fica dando os toques. E o Diabo é o pai do Rock. E o filho do Raulzito é DJ e estará nesta cidade nos próximos dias. E se a vida é uma estada em terra estranha, então deve ser vivida como uma aventura.

    Qual o momento de entrar numa peleia e qual o de deixar prá lá?

    Prefiro pelear contra inimigos declarados e não contra pessoas ocasionalmente desorientadas. Prefiro pelear contra os que oprimem minha classe do que contra trabalhadores de qualquer tipo. Sempre.

    E neste momento me assalta uma dúvida pós moderna.

    Os gregos costumavam usar uma mesma palavra para arte e trabalho. Para eles tudo o que é feito pela mão do homem pertence a uma mesma categoria.

    Um pós-moderno diria que um capitalista trabalha. Efetivamente ele trabalha. Precisa fazer reuniões, organizar equipes, prever cenários, coordenar grupos de trabalho. Um sindicalista de esquerda se ocuparia de atividades muito parecidas.

    Mas o que um pós-moderno não quer é se posicionar, é tomar partido, é assumir um lado. Até porque, todos os pós-modernos que conheço estão dentro das academias, confortavelmente instalados, sem sofrer os efeitos da relação de dominação de classe existente no chão da fábrica. Então, para eles é fácil concluir que o operário e o patrão são a mesma coisa porque ambos trabalham. Pós modernos! Estes sim são tudo a mesma coisa.








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