O sono da Justiça e as bocas desdentadas

22 11 2010

Sempre visito a Bienal do Mercosul. Numa dessas visitas, não importa quando, escrevi o texto abaixo e achei que estava louco demais. Logo depois recebi um vídeo do pronunciamento do subcomandante Marcos, da guerrilha mechicana de Chiapas, feito dias antes, num evento no México. Me senti mais lúcido quando o subcomandante disse: “Tal vez coincidamos en la inquietud por un necesario debate y por un intercambio de ideas que ayuden a aclarar un poco este confuso y desordenado horizonte que algunos llaman historia contemporánea y que, a ratos, hace de lo trivial y grotesco asunto de interés y escándalo mundial; y otras veces hace de lo terrible y aberrante algo que, a fuerza de repertirse, se convierte en tonada monótona y desapercibida.”

O SONO DA JUSTIÇA E AS BOCAS DESDENTADAS

A senhora gorda e insossa dorme preguiçosa, atirada sobre um pedestal de estátua, segurando uma balança que quase lhe cai da mão. Rodeando o pedestal, funcionários sem vontade, enterrados até o pescoço nos grossos processos que enchem o local, olham inertes para as pilhas de papéis.
É a Justiça vista por José Orozco, pintor mexicano, lá pela primeira metade do século XX. O quadro, plantado em uma das paredes da Bienal do Mercosul, em Porto Alegre, num outubro qualquer, é de uma atualidade geográfica e temporal ao mesmo tempo eloqüente e assustadora.
Noutra sala totalmente escura à qual se chega por um corredor preto e sem luz onde absolutamente nada se vê, a boca desdentada e feia de um negro, projetada no meio do nada, lê, com previsível dificuldade, os artigos da Constituição brasileira. Se uma imagem vale mais que mil palavras, aquela vai ao infinito da capacidade de uma linguagem.
Embora a execução de uma obra de arte requeira certa dose de racionalidade, ainda que apenas para o domínio da técnica, é evidente que o processo da criação vem de muito mais longe, das profundezas da psiquê humana. Impossível, por óbvio, saber com certeza o que pensou o artista ao transformar sua inspiração em obra. Provavelmente não pensou e aí reside a grande virtude da arte.
O fato é que, na condição de receptor, me sinto imediatamente açoitado pela clareza da revelação. O contraste entre a boca desdentada que lê e o texto jurídico-erudito que é lido aos trancos, torna inequívoco que estamos diante de dois mundos paralelos e sobrepostos. Emerge transbordante da imagem a constatação de que o mundo expresso no texto constitucional não existe para o mundo da boca desdentada e que, em contrapartida, o mundo da boca desdentada também não existe para o do texto constitucional.
E nós que nos chamamos de esquerda? Em que mundo estamos, a discutir se o governo do PT, deve ser apoiado ou atacado?
Pára tudo! Vamos nos afastar um pouco.
Vamos sair da atmosfera do nosso mundo para que possamos enxergá-lo todo e ver que, na verdade são dois: o da constituição e o das bocas desdentadas.
São dois mundos incompatíveis e, como diz a física clássica, não podem ocupar o mesmo lugar no espaço. Para que isto aconteça é necessário que um destrua o outro. É o único destino possível.
Por enquanto, entretanto, quem está vencendo é o mundo da Constituição jurídico-erudita e quem está sendo exterminado não é o mundo das bocas desdentadas, mas os donos das bocas desdentadas.
Mas nós estamos “pelaí”! Colocamos no centro da discussão, o poder no mundo da Constituição e viramos a cara para não ver o sorriso patético das bocas desdentadas. Marx, Freud, Hesse, para citar apenas alguns que se afastaram o suficiente para enxergar melhor avisaram. “A ave sai do ovo. O ovo é o mundo. Quem quiser nascer, tem que destruir um mundo”, constatou Demian antes mesmo que o Lobo da Estepe tivesse a chance de escolher as suas portas no teatro mágico. O que chamamos civilização adoeceu ainda criança e vai de mal a pior. A Justiça, que dorme, só acordará com a morte da Injustiça que é condição para a existência do capitalismo.
E nós discutindo o governo do PT e os partidos no mundo da Constituição! Nossos cérebros foram envenenados por uma droga que não mata mas deixa em transe profundo. A civilização, em permanente mal estar, é um zumbi atormentado e inútil. Nós, da maravilhosa esquerda, ilustrada e sempre prenhe de novas teorias, não conseguimos mais acordar. Que esperar dos donos das bocas desdentadas? Violência não é a prisão dos Sem Terra, é a existência de “com” e “sem” terras por todo o mundo. A Justiça, aquela que dorme, só não dorme mais profundamente devido ao barulho das bombas na Palestina, no Iraque ou no Afeganistão.
Num museu em Porto Alegre, um panfleto eleitoral (com quase cem anos de idade), contra Julio de Castilhos exortava: “riograndenses, às urnas e, in extremis, às armas”. Acabaram indo às armas. Outros tempos, outros Impérios, outras lutas.
Mas o centro do problema da esquerda no mundo da Constituição, é o governo Lula, a Dilma, o papel da Marina ou mais um novo partido. As bocas desdentadas são outro mundo.
Vai ver, no fim é só ficção científica!

Anúncios

Ações

Information

One response

23 11 2010
Dona Flor

Se despertássemos sequer para nosso desamparo ontológico como espécie humana (somos conscientes de nossa finitude, poxa!) viveríamos certamente melhor. Possivelmente seríamos mais felizes – durantes os lapsos de segundos que dura uma felicidade -, mais generosos e menos covardes. Aprenderíamos a gostar do som saído das bocas sem dentes, a revirar preconceitos e esperar, ainda que fosse pela última esperança, por uma madrugada de sonhos. O quê, pois, reúne o sentido de nossa existência? Se o homem é o animal que crê, elijamos melhor nossas fátuas ilusões. O governo de coligações do PT, da dona Dilma e do amigo, é meio broxante, afinal. Viva a política de quintal, as transgressões nervosas e a ética teimosa! Assisti a um documentário em Brasília que mostrava o cotidiano de detentas numa cárcere de trânsito destinada a mulheres que estavam amamentando os filhos paridos na prisão. O centro da filmagem se situava nos relatos e percepções de uma veterana do crime carioca, a desdentada Daluana. Era difícil evitar o incomôdo de fitar aquela boca um pouco vazia, mas a veracidade do que dizia assaltava nosso estômagozinho recheado. Deletério e obscuro o cenário dessa festa pop a qual nos habituamos, com ares de justiça, democracia, etc. e tal.

Até mais!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




%d blogueiros gostam disto: