A mágica da TV

17 05 2010

O Brasil é um dos poucos grandes países do mundo cuja TV não apresenta sequer um programa de debates políticos em suas redes nacionais. Continuamos seguindo o modelo descrito por Bourdieu: uma TV que mostra o irrelevante para esconder o que interessa.

Laurindo Lalo Leal Filho

A meu ver, quem melhor definiu a manipulação televisiva foi o sociólogo francês Pierre Bourdieu. Ele a comparou ao mágico que, no palco, chama atenção para uma de suas mãos agitando um lenço enquanto com a outra, disfarçadamente, tira as moedas (ou a pomba) da manga. A TV, para ele, faz a mesma coisa. Destaca o supérfluo para esconder o essencial. Isso é todo dia. Mas, no Brasil, quando tem seleção de futebol no meio chega as raias do insuportável.

Na última semana, a entrevista do técnico Dunga contando as razões que o levaram a chamar este ou aquele jogador para a seleção ocupou horas e horas das diversas programações. Sem falar nos comentários abalizados dos diversos especialistas. Não que num país como nosso a convocação do escrete não seja importante. Mas tudo deveria ter um certo limite. Afinal quanta coisa muito mais relevante para sociedade não poderia estar sendo mostrada naqueles horários, sem que o público deixasse de saber quais os craques que irão representar o Brasil na África do Sul. Dou um exemplo.

Manhã de quarta-feira, 12 de maio. Na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, milhares de trabalhadores rurais vindos de todos os cantos do país se reúnem para dar início à 16a. edição do Grito da Terra Brasil, organizado pela Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag). Em seguida fazem um protesto contra a bancada ruralista em frente ao Ministério do Desenvolvimento Agrário e encaminham uma pauta com mais de duzentas reivindicações ao presidente Lula. À tarde se concentram em frente ao Ministério do Trabalho e depois vão ao Congresso Nacional, onde encerram a manifestação.

Na pauta dos trabalhadores rurais está o combate ao trabalho escravo e a revisão do Código Florestal que permite o uso do FGTS para compra de imóveis rurais. À noite o Jornal Nacional, o único informativo da maioria da população brasileira, dedicou exatos 15 segundos ao assunto. O seu apresentador disse o seguinte: “Trabalhadores rurais foram hoje a Brasília para a Manifestação do Grito da Terra. Na Esplanada dos Ministérios, eles pediram mais recursos para a agricultura familiar e a reforma agrária. Foram recebidos pelo presidente Lula, que prometeu mais dinheiro para o setor”. E só. Nada sobre os ruralistas, o trabalho escravo e o Código Florestal.

Um dia antes, no mesmo jornal, o técnico Dunga sentou-se na bancada, ao lado dos apresentadores, e discorreu sobre suas decisões por nada menos do que seis minutos e 54 segundos. E para os dias seguintes eram prometidas reportagens especiais com cada um dos 23 jogadores por ele convocados. O supérfluo – a mão que balança o lenço – segue firme no ar, com o futebol recebendo generosos espaços para longas entrevistas, amplas discussões e análises aprofundadas, acompanhadas de replays, tira-teimas, gráficos e alentadas estatísticas. Você já imaginou o que seria deste país se todo esse empenho fosse dedicado também ao essencial? Se o Grito da Terra Brasil servisse de gancho (como se diz no jargão jornalístico) para análises da questão fundiária com o mesmo tempo e a mesma tecnologia destinadas ao futebol?

O Brasil é um dos poucos grandes países do mundo (em tamanho e importância política) cuja televisão não apresenta sequer um programa de debates políticos em suas redes nacionais. Há algumas entrevistas, poucas e mal ajambradas do tipo Roda Viva e Canal Livre. Debate que é bom, nada. Continuamos seguindo direitinho o modelo descrito por Bourdieu: uma televisão que esconde, mostrando. Mostra o irrelevante para esconder o que interessa.

Laurindo Lalo Leal Filho, sociólogo e jornalista, é professor de Jornalismo da ECA-USP. É autor, entre outros, de “A TV sob controle – A resposta da sociedade ao poder da televisão” (Summus Editorial). Texto publicado no site Cartamaior.





Por falar em espécie

17 05 2010

Mandei para minha lista de emails um desenho animado em que uma mãe mendiga com um filho ao lado e outro pendurado no seio vazio está sentada numa calçada onde as pessoas das quais se vê apenas as pernas passam ignorando totalmente sua presença. De repente as pessoas vão parando na frente da mendiga que permanece com o olhar vazio. O plano se abre e vemos que as pessoas não pararam por causa da mulher mas para ver um jogo de futebol da seleção brasileira que passa em televisores expostos na vitrine em frente da qual se encontra a mulher. Todos vibram com um gol menos a mulher. Como título do email escrevi: Retrato do capitalismo.

Alguém me responde questionando se é certo atribuir toda a nossa indiferença, cinismo e hiprocrisia ao capitalismo. Como exemplo, pergunta “quando um pai estupra uma filha de 5 anos, será que dá pra culparmos o capitalismo? será que o sistema econômico e político em que estamos mergulhados é o responsável pela nossa ‘miséria’ ?”

Respondo minha resposta. Mesmo sem ser pessimista devo constatar que afinal este sistema foi criado por nós humanos. Lamento mas sou obrigado a concluir que nossa espécie não deu certo. Deve ter sido algum erro genético na fórmula original. Nossa espécie tem um defeito de nascença. É difícil para quem se considera a obra prima da criação, se olhar no espelho e ver que somos uma espécie de HIV contaminando o planeta inteiro. Penso que a dificuldade de admitir esta óbvia realidade é que leva muitos a criar deuses para se eximir da responsabilidade ou procurar alguma explicação alternativa que não afete o narcisismo. Outros chegam perto da constatação mas acham que a solução é fazer uma seleção de indivíduos sem defeitos para purificar a espécie. Assim nasceu o nazismo. Talvez cheguemos a um admirável mundo novo. A lógica belicista marketeada pelo Império atual é eliminar o excedente de pessoas para que o mundo fique melhor.

Raul Seixas desistiu e pediu socorro: “Ô seu moço do disco voador, me leva com você prá onde você for. Ô seu moço, mas não me deixe aqui, enquanto eu sei que tem tanta estrela por aí”. Mas calma! Não entenda errado. Suicídio não é solução. Pelear é sempre melhor e criar é a vocação humana. Apesar dos nossos defeitos de nascença podemos criar coisa melhor que que este sistema injusto e desumano.








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